Há uma coisa que me interessa cada vez mais quando penso em comunicação: a distância entre as pessoas nem sempre é geográfica.
Podemos estar a poucos quilómetros uns dos outros e falar línguas diferentes. Podemos falar a mesma língua e, ainda assim, não nos entendermos.
Hoje é fácil atravessar fronteiras.Uma mensagem chega ao outro lado do mundo em segundos. Uma empresa apresenta um produto a milhares de quilómetros. Uma reunião junta pessoas de diferentes países sem que ninguém precise de sair do escritório.
Temos ferramentas para nos aproximar. Mas aproximarmo-nos é outra coisa.
Penso nisso quando vejo empresas e organizações a falar sobre internacionalização, novos mercados, investimento, cooperação e oportunidades. Falamos muito sobre chegar. Pouco sobre como chegamos.
Quando duas realidades diferentes se encontram, quem faz a tradução? Não a tradução das palavras! A dos contextos.
Quem explica que uma determinada forma de negociar pode não funcionar noutro lugar? Quem percebe que confiança não se constrói da mesma forma em todas as culturas? Quem sabe quando uma mensagem precisa de ser adaptada e quando precisa, simplesmente, de ser melhor ouvida? Quem conhece o mercado por dentro e consegue explicá-lo a quem está de fora sem o reduzir a estereótipos?
É aqui que, para mim, a comunicação ganha outra dimensão. Chegar não é compreender. Podemos chegar com um excelente produto, uma boa estratégia e uma apresentação impecável. E ainda assim falhar!
Não necessariamente porque o produto não é bom, mas porque não conseguimos criar relação. Tenho cada vez mais dificuldade em separar comunicação de relação. Uma parceria pode começar com uma oportunidade, mas dificilmente se sustenta sem confiança. E confiança não se apresenta num PowerPoint. Constrói-se na forma como ouvimos, respondemos, negociamos e compreendemos o outro.
Por isso, tenho alguma dificuldade com a ideia de “entrar num mercado” como se fosse apenas uma questão comercial. Entrar é fácil. Compreender é outra coisa. Quem faz a ligação?
Quando pensamos na aproximação entre países e mercados, pensamos em acordos, instituições, missões empresariais, investimento, eventos e protocolos. Mas existe uma parte menos visível: as pessoas que fazem a ligação. Pessoas que conhecem o lugar de onde vêm e conseguem explicá-lo a quem está de fora. Que conseguem ouvir sem partir do princípio de que já sabem. Que percebem que uma oportunidade pode ter significados diferentes para quem chega e para quem já está.
Esse conhecimento raramente aparece num plano de internacionalização. Mas pode determinar se uma relação começa ou não.
Penso muito nisto a partir de Moçambique!
Somos um país de língua portuguesa, mas a nossa realidade não cabe apenas numa língua.
Vivemos numa região onde outras línguas e culturas têm uma presença forte. As nossas relações ultrapassam fronteiras linguísticas nos negócios, na diplomacia, na educação, na cultura e na vida quotidiana.
Isso faz com que a nossa experiência seja, por natureza, mais atravessada por diferentes referências.
Talvez seja por isso que vejo África com alguma resistência à ideia de que podemos falar de “um mercado africano” como se fosse uma realidade única.
Não é!
Há países diferentes, contextos diferentes e formas diferentes de fazer negócios e construir relações. E mesmo dentro de cada país, a realidade é mais complexa do que qualquer apresentação institucional consegue mostrar.
É aqui que a comunicação importa. Durante muito tempo, aprendemos a pensar comunicação como mensagem, canal, público, conteúdo e alcance.
Tudo isso continua a importar. Mas quando duas realidades se encontram, há uma pergunta anterior: Conseguimos entender-nos?
Uma boa comunicação não termina quando a mensagem chega. Começa aí!
Porque é preciso perceber como ela foi recebida. O que significou. O que ficou por dizer. Isso exige atenção. E exige aceitar que aquilo que funciona para nós pode não funcionar para outra pessoa.
Uma palavra pode ter outro peso. Uma forma de abordar alguém pode criar proximidade num lugar e distância noutro. Por isso, antes de perguntar: “O que podemos oferecer?” talvez devêssemos perguntar: “O que precisamos de aprender?”
Para mim, essa é uma pergunta essencial quando falamos de internacionalização. Não basta abrir portas. Não acredito que aproximar mercados signifique torná-los iguais.
Cada contexto tem a sua história, os seus códigos e a sua forma de estabelecer relações. É aí que vejo uma responsabilidade importante para quem trabalha em comunicação. Não apenas transmitir mensagens, mas ajudar a criar entendimento.
Não falar pelo outro, mas criar espaço para que o outro seja ouvido. Não chegar a um mercado apenas para dizer o que temos para oferecer, mas compreender o que estamos a encontrar.
No próximo ciclo de internacionalização, talvez precisemos menos de pessoas que simplesmente abrem portas e mais de pessoas que sabem o que fazer depois de a porta abrir. É aí que a comunicação deixa de ser apenas uma ferramenta. Passa a ser aquilo que permite que duas realidades diferentes trabalhem juntas.
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Sobre a autora
Sylla Faruk é profissional de Comunicação e Relações Públicas, com experiência em comunicação estratégica, reputação, influência e liderança. A partir de Moçambique, tem desenvolvido o seu trabalho na intersecção entre comunicação, negócios, liderança e impacto.
Fundadora da SHEvolution, Sylla interessa-se particularmente pela forma como a comunicação influencia relações, organizações e mercados, e pelo papel que pode desempenhar na aproximação entre diferentes contextos culturais e económicos.
É autora de Voz com Alma e integra a lista Top 30 Mulheres Mais Influentes em Comunicação & Relações Públicas de Moçambique (2025), pela COMARP.
Escreve a partir de África sobre comunicação, influência, liderança e as relações que se constroem quando diferentes mundos se encontram.