Por Yud da Costa
Falar sobre o surgimento do primeiro género musical em Angola é, antes de tudo, compreender que a música angolana não começou com um nome, nem com um estilo definido. Começou com o corpo, palavra, ritmo, muito antes de existir qualquer registo escrito.
Antes da colonização europeia, o território angolano era habitado por diferentes povos organizados em reinos como o Kongo, Ndongo e Lunda. Nessas sociedades, a música não era entretenimento, era linguagem. Servia para comunicar, educar, celebrar, curar e até governar.
Os primeiros sons organizados que hoje reconhecemos como “música” estavam ligados a rituais e ao quotidiano. O uso de tambores, palmas, cânticos e danças fazia parte de cerimónias de iniciação, casamentos, colheitas e rituais espirituais.
Não existia ainda um “género musical” como entendemos hoje; existia uma prática colectiva onde o ritmo guiava a vida. Cada comunidade tinha os seus próprios padrões sonoros, muitas vezes transmitidos oralmente de geração em geração. A música era identidade.
Com a chegada dos portugueses no século XV, Angola entrou num novo ciclo histórico. O contacto entre culturas trouxe mudanças, incluindo na música. Instrumentos europeus foram introduzidos, novas línguas passaram a influenciar os cânticos e a estrutura musical começou a transformar-se.
Esse encontro, muitas vezes forçado e desigual, deu origem a novas formas de expressão. Aos poucos, começaram a surgir padrões mais reconhecíveis, misturando elementos africanos e europeus.
É nesse processo que podemos falar, pela primeira vez, no nascimento de algo próximo a um “género musical”.
Entre o final do século XIX e início do século XX, com o crescimento das cidades e o contacto mais intenso entre diferentes culturas, começaram a surgir formas musicais mais estruturadas.
Um dos primeiros estilos identificáveis na música urbana angolana foi o semba, considerado hoje a base da música moderna de Angola.
O semba nasceu da fusão entre ritmos tradicionais e influências externas, mantendo a essência africana no uso do ritmo e da dança. Através desse género musical, contavam-se histórias, do amor, da vida, da sociedade e das mudanças do tempo.
Com o tempo, a música angolana deixou de ser exclusivamente ritual e passou a ser também instrumento de expressão social e política. Durante o período colonial e, mais tarde, na luta pela independência, a música tornou-se voz de resistência.
Os artistas usavam canções para transmitir mensagens, preservar línguas nacionais e reforçar a identidade cultural angolana. A partir do semba, outros géneros foram surgindo, como a kizomba, o kuduro e a tarraxinha, cada um reflectindo o seu tempo, mas mantendo raízes na tradição.
Hoje, a música angolana é reconhecida internacionalmente, mas continua carregando a herança daqueles primeiros ritmos sem nome, criados muito antes da história ser escrita.
Em Angola, a música não nasceu num momento específico; sempre esteve presente no batuque, na dança e na voz do povo.
Fonte: Estudos sobre música tradicional angolana; UNESCO; pesquisas etnomusicológicas sobre o semba e a evolução da música em Angola.