Home Entrevista Do jornalismo ao desenvolvimento: comunicação em contextos de emergência

Do jornalismo ao desenvolvimento: comunicação em contextos de emergência

Por vários anos, Hélio Manhiça contou histórias através das câmeras e dos microfones da televisão, como jornalista e apresentador. Hoje, continua a contar histórias, mas em cenários diferentes: comunidades afectadas por conflitos, deslocamentos e crises humanitárias. A sua transição do jornalismo para a comunicação para o desenvolvimento levou-o a trocar a lógica da notícia do momento pelo acompanhamento de processos de mudança que se constroem ao longo do tempo, colocando o microfone e a câmera ao serviço das comunidades.

Com experiência nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula, Hélio Manhiça tem desempenhado um papel de ponte entre comunidades vulneráveis e o mundo, documentando histórias de resiliência, esperança e reconstrução.

Em entrevista à Revista COMARP, Hélio Manhiça fala sobre a sua passagem para o sector do desenvolvimento, os desafios da comunicação em contextos de emergência, a importância de colocar as comunidades no centro das narrativas e o papel da comunicação na promoção da resiliência e da mudança social. Leia a entrevista na íntegra.

1. A sua trajectória começou no jornalismo, incluindo a passagem pela STV. Como essa experiência moldou o profissional que é hoje?

A passagem pela STV foi, sem dúvida, uma das experiências mais importantes da minha vida. Sempre sonhei em fazer televisão e a STV abriu-me as portas e deu-me a oportunidade de mostrar as minhas capacidades. Foi lá que aprendi a filmar, editar e produzir reportagens, um processo que exigiu entrega total e muita dedicação.

Tive o privilégio de trabalhar directamente com a Bordina Muala, uma grande apresentadora que me transmitiu, na altura, ensinamentos valiosos e foi uma fonte de força constante. Aprendi também com outros colegas extraordinários, como Mucipo, Belmiro, Jeremias, Mandlate e Bismarque, profissionais que moldaram muito do que sou hoje.

O momento decisivo veio com o Daniel David, o nosso líder, que num dado dia me reuniu com mais duas colegas e nos disse: “A partir de hoje, vocês serão Pivots do Jornal da Noite.” Pareceu um sonho. Comecei com muita nervosidade, mas paulatinamente a confiança da liderança foi essencial, fui-me tornando mais seguro e mais solto diante das câmeras.

Esse percurso árduo na STV, com toda a sua versatilidade e os seus desafios, forjou o profissional que sou hoje. Actualmente, trabalho de forma independente, faço um pouco de tudo: design, filmagem, edição, fotografia e construção de histórias de mudança. Actuo em comunidades rurais em contextos difíceis, mas faço-o com satisfação, porque sou a ponte entre as comunidades e o mundo: as suas vozes são amplificadas e chegam aos quatro cantos do planeta.

2. O que motivou a transição do jornalismo para o sector de desenvolvimento?

A motivação veio de um lugar muito profundo: a vontade de dar voz às pessoas que são frequentemente deixadas para trás, as que vivem em contextos de emergência causados por cheias, ciclones ou conflito armado, como é o caso em Cabo Delgado.

No jornalismo, contávamos a notícia do momento. No desenvolvimento, podemos acompanhar o dia-a-dia das comunidades, os seus anseios, as suas dificuldades e, acima de tudo, o seu pensamento e as suas soluções. Percebi que a comunicação poderia ser uma ferramenta poderosa de transformação social, não apenas para informar, mas para inspirar mudanças reais e duradouras na vida das pessoas mais vulneráveis.

Foi esse desejo de colocar os microfones e as câmeras ao serviço das comunidades, em vez de apenas reportar sobre elas, que me trouxe ao sector do desenvolvimento.

3. Como foi a passagem de um ambiente orientado pela notícia e actualidade para um contexto focado em programas, projectos e impacto social?

A transição foi relativamente natural, graças à versatilidade que desenvolvi ao longo do meu percurso no jornalismo. A minha capacidade de adaptar rapidamente e de dominar várias ferramentas técnicas facilitou muito o processo de integração.

É verdade que alguns colegas tinham dúvidas iniciais, pensavam que eu sabia apenas apresentar programas de televisão. Mas rapidamente demonstrei que trazia competências técnicas diversificadas, que iam muito além da apresentação.

A grande diferença é que, no sector do desenvolvimento, trabalhamos com uma cadência mais planificada, orientada por entregáveis concretos e por resultados de médio e longo prazo. É um trabalho mais “humanizado”, no sentido em que nos permite acompanhar as comunidades ao longo do tempo, construir relações de confiança e documentar transformações. Isso não significa que seja menos exigente, pelo contrário, é um trabalho complexo que requer resiliência, criatividade e uma profunda capacidade de escuta.

4. O que significa, na prática, comunicar para o desenvolvimento?

Comunicar para o desenvolvimento significa, na prática, tornar visíveis os resultados e o impacto daquilo que os projectos implementam nas comunidades. Significa documentar boas práticas, lições aprendidas e histórias de mudança, para que possam servir de inspiração e orientação para outras pessoas e organizações.

Mas, acima de tudo, comunicar para o desenvolvimento significa colocar a comunidade no centro da narrativa. Não somos nós, os comunicadores, os protagonistas, somos facilitadores. As comunidades têm saberes, soluções e respostas que merecem ser amplificadas com respeito e dignidade. A nossa função é criar pontes entre essas vozes e os decisores, os doadores e o mundo.

É um acto profundamente político e ético: ao contar estas histórias, estamos a contribuir para que mais pessoas possam aprender, crescer e sair de ciclos de pobreza e vulnerabilidade.

5. Que diferenças encontrou entre trabalhar na comunicação social e actuar em projectos de desenvolvimento?

Na comunicação social, o ritmo era acelerado e constante: todos os dias havia notícias para produzir, debates para apresentar, fontes para contactar. Era um trabalho intenso, mas muito imediato.

Nos projectos de desenvolvimento, o trabalho tem um carácter diferente. É mais planificado, estruturado em torno de entregáveis e de ciclos de projecto. Há um espaço maior para reflectir, para ouvir as comunidades com calma e para construir narrativas com profundidade.

Dito isto, o trabalho no desenvolvimento também é extremamente complexo e exigente. É preciso ser resiliente para lidar com cenários muito adversos, comunidades deslocadas, contextos de crise, realidades que nos interpelam emocionalmente. A diferença fundamental é que, no desenvolvimento, temos a possibilidade de acompanhar o impacto do nosso trabalho ao longo do tempo, o que é extremamente gratificante.

6. Depois de mais de 10 anos de experiência, como avalia a evolução da comunicação para o desenvolvimento em Moçambique?

Sinto que houve uma evolução muito positiva. Cada vez mais organizações em Moçambique reconhecem o papel estratégico da comunicação no desenvolvimento e investem nela de forma mais intencional.

As organizações estão mais focadas em promover boas práticas das comunidades, estimular a participação comunitária e influenciar mudanças comportamentais sustentáveis nas áreas da saúde, educação, protecção da criança, igualdade de género, governação e resposta humanitária.

Há também uma tendência crescente para valorizar as vozes e os conhecimentos locais, o que é um avanço muito importante. As histórias muitas vezes são o que as comunidades conquistam e não simplesmente sobre o que as organizações fazem. Esse é um sinal de maturidade na área e mostra que estamos a caminhar na direcção certa: para uma comunicação mais inclusiva, participativa e com impacto.

7. Parte do seu trabalho tem sido desenvolvido em Cabo Delgado. Como tem sido actuar num contexto marcado por conflito e emergência?

Trabalhar em Cabo Delgado tem sido, ao mesmo tempo, um dos maiores desafios e das maiores aprendizagens da minha vida profissional. Tenho trabalhado, também, na Prevenção do Extremismo Violento e na Protecção dos deslocados internos nas províncias de Niassa (Distrito de Lichinga) e Nampula (Memba e Eráti).

Há momentos em que as lágrimas surgem inevitavelmente, quando nos deparamos com crianças, mulheres e idosos em situação de extrema vulnerabilidade, sem abrigo, sem alimentos, sem segurança. São realidades que nos marcam profundamente e que nos lembram, a cada dia, da urgência do nosso trabalho.

Mas há também momentos de enorme esperança. As comunidades de Cabo Delgado, por exemplo, têm uma resiliência extraordinária. Apesar de tudo o que perderam, continuam a lutar, a reconstruir e a encontrar soluções. A nossa responsabilidade, enquanto comunicadores, é honrar essa resiliência, contar as suas histórias com dignidade, respeito e verdade.

8. Que cuidados devem existir na comunicação com comunidades deslocadas ou afectadas por conflitos?

O primeiro cuidado é a empatia. Quando trabalhamos com comunidades deslocadas ou afectadas por conflitos, precisamos de nos colocar verdadeiramente no lugar do outro, ouvir antes de falar, compreender antes de contar.

Devemos respeitar sempre os princípios humanitários: sem qualquer discriminação de nacionalidade, etnia, género, religião ou opinião política.

É igualmente fundamental garantir sensibilidade ao género e inclusão: mulheres, raparigas, pessoas com deficiência e outros grupos vulneráveis devem ter a sua representação nas histórias que contamos.

Acima de tudo, devemos incorporar valores decoloniais, antirracistas e feministas no nosso trabalho. Ou seja, isso significa valorizar os conhecimentos e as soluções das próprias comunidades, amplificar as suas vozes em vez de falar por elas, e reconhecer que são elas e não as organizações, as verdadeiras agentes da sua própria transformação.

9. Que desafios específicos enfrenta um profissional de comunicação ao trabalhar com comunidades afectadas por deslocamentos e crises humanitárias?

Os desafios são muitos e variados. Em primeiro lugar, há o desafio emocional: trabalhar em proximidade com o sofrimento humano exige uma grande capacidade de gestão emocional e de autocuidado. É fundamental que os profissionais tenham apoio psicossocial adequado.

Depois, existe o desafio ético de contar histórias de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade com responsabilidade e dignidade, devemos evitar a exploração da dor, respeitar a privacidade e garantir o consentimento informado, especialmente quando se trabalha com crianças.

Há também desafios logísticos consideráveis: acesso limitado às comunidades, infra-estruturas precárias, falta de conectividade e, por vezes, questões de segurança que condicionam o trabalho no terreno.

Por fim, existe o desafio da representação: garantir que as histórias que contamos sejam genuínas, que não reforcem estereótipos e que coloquem as comunidades como sujeitos activos – e não como objectos de pena ou caridade. Navegar entre todos estes desafios requer formação contínua, humildade e um compromisso com os valores humanitários.

10. Na sua visão, qual é o papel da comunicação na promoção da resiliência, inclusão social e reconstrução comunitária?

A comunicação tem um papel absolutamente central nestes três domínios. Em contextos de crise, a comunicação não é um luxo, é uma necessidade humanitária. As comunidades precisam de informação fiável para tomar decisões, para aceder à ajuda disponível e para reclamar os seus direitos.

Na promoção da resiliência, a comunicação serve para documentar e partilhar as estratégias que as próprias comunidades desenvolvem para sobreviver e reconstruir. Quando amplificamos essas histórias, estamos a validar os saberes locais e a inspirar outros.

Na inclusão social, uma comunicação verdadeiramente transformadora deve garantir que as vozes historicamente silenciadas, mulheres, jovens, pessoas com deficiência, minorias, sejam ouvidas, valorizadas e integradas nos processos de tomada de decisão.

Na reconstrução comunitária, a comunicação ajuda a preservar a memória colectiva, a celebrar as conquistas alcançadas e a manter viva a esperança. Uma boa história de mudança pode ser o catalisador para que outras comunidades acreditem que é possível reconstruir e transformar as suas realidades.

11. Existe alguma experiência ou história vivida no terreno que o tenha marcado particularmente durante o trabalho em Cabo Delgado?

Na verdade, são várias (risos)… mas tenho uma história que me marcou profundamente. Em Montepuez, trabalhámos com um grupo de camponeses deslocados do terrorismo, pessoas que tinham perdido tudo por causa do conflito. No âmbito do projecto que implementávamos, oferecemos treinamentos em técnicas de produção, insumos agrícolas, sementes e apoio técnico.

Uma das beneficiárias conseguiu produzir grandes quantidades de hortícolas, couve, tomate, alface, cenoura e cebola, e com os lucros obtidos deu um passo extraordinário: abriu uma pequena mercearia onde vende produtos de primeira necessidade, tornando-se uma microempresária na sua própria comunidade.

Infelizmente, o projecto teve de encerrar abruptamente devido ao fim do financiamento da USAID. Mas quando interagimos, a resposta dela ficou gravada em mim: disse que nunca iria parar, que já tinha os conhecimentos necessários para continuar a produzir e a crescer.

Esta história resume tudo aquilo em que acredito: o verdadeiro desenvolvimento não é o que acontece enquanto o projecto existe, é o que fica quando o projecto termina. É a capacidade que as pessoas adquirem para tomar as rédeas das suas próprias vidas.

12. Que competências considera fundamentais para jovens profissionais que pretendem actuar na comunicação para o desenvolvimento?

Em primeiro lugar, os jovens profissionais devem estar preparados para trabalhar em ambientes adversos e complexos, onde as condições são muitas vezes imprevisíveis. A resiliência é uma competência essencial.

Devem também ser versáteis e capazes de fazer um pouco de tudo: filmar, editar, fotografar, escrever para redes sociais, fazendo-o com rapidez e qualidade. No terreno, não há espaço para procrastinação: as histórias precisam de ser contadas no momento em que acontecem.

Mas talvez a competência mais importante seja a escuta activa. Devemos deixar as comunidades falar na sua língua, nas suas próprias palavras, com a sua própria voz. A autenticidade é insubstituível.

Por fim, é fundamental que os jovens incorporem valores decoloniais, antirracistas e feministas na sua prática profissional: questionar os seus próprios preconceitos, valorizar os saberes locais e comprometer-se com uma comunicação que empodere, em vez de tutelar.

13. Depois da sua experiência no jornalismo e no sector humanitário, que legado gostaria de deixar para a próxima geração de comunicadores?

O legado que gostaria de deixar é simples, mas profundo: que continuem sempre a aprender. O mundo muda, as comunidades mudam, as ferramentas mudam, e nós temos de mudar com elas.

Observem o trabalho de outras organizações, inspirem-se nas melhores práticas globais, mas nunca percam de vista a realidade local. Procurem sempre trazer histórias de mudança que inspirem e mostrem que a transformação é possível, que as comunidades têm a capacidade de agir e que o desenvolvimento pode e deve ser feito com dignidade.

E, acima de tudo, nunca se esqueçam: somos a ponte entre as comunidades e o mundo. As organizações fazem um trabalho relevante, mas muitas não sabem como contar esses feitos. Cabe a nós, comunicadores, dar-lhes forma e vida, documentar os impactos, as lições aprendidas e as conquistas que inspiram outras pessoas a acreditar que um mundo mais justo e equitativo é possível.

Tragam sempre a voz da comunidade. Porque no final, é ela que importa.

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