Home Mulher em Foco Marlena Chambule: “Desenvolver pessoas é o meu propósito de vida”

Marlena Chambule: “Desenvolver pessoas é o meu propósito de vida”

Texto: Marlene Mboene

Ainda muito jovem, percebeu que o verdadeiro impacto de uma liderança não está apenas nos cargos ocupados ou nos resultados alcançados, mas na capacidade de transformar pessoas. Hoje, aos 36 anos, Marlena Chambule tornou-se uma referência em liderança, desenvolvimento humano e gestão estratégica de talentos, carregando consigo uma missão clara: ajudar pessoas a alcançarem as suas melhores versões.

Mulher temente a Deus, esposa, mãe de dois filhos e apaixonada pelo desenvolvimento humano, Marlena descreve-se como alguém profundamente realizada por viver o seu propósito. Fora do ambiente corporativo, aprecia cozinhar, viajar, ler e cultivar relações genuínas. “Tenho muitos conhecidos e poucos amigos”, afirma, revelando uma personalidade reservada, mas profundamente humana.

Natural de uma família estruturada e guiada por valores sólidos, cresceu num ambiente onde disciplina, competitividade, humildade e temor a Deus eram ensinamentos diários. Filha de pai militar e mãe enfermeira, aprendeu desde cedo a importância da dedicação, da excelência e da perseverança dos cuidados com a saúde. Teve uma infância tranquila e afectivamente estável, que contribuiu para moldar a mulher resiliente e determinada que é hoje.

O seu percurso académico foi marcado pela consistência. Frequentou instituições públicas de referência, entre elas a Escolinha Clube Militar, a Escola Primária A Luta Continua e a Escola Secundária Josina Machel, onde chegou a integrar o quadro de honra.

Apesar do excelente desempenho escolar, viveu uma lição quando não conseguiu ingressar na Universidade Eduardo Mondlane (UEM) na primeira tentativa. Mas não desistiu, aproveitou o tempo para se preparar melhor e estudar inglês. No ano seguinte, foi aprovada na UEM, UP e ISRI (actual UJC), optando pela UEM, onde concluiu a licenciatura em Ciências Políticas em tempo recorde. Posteriormente, especializou-se através de uma pós-graduação em Gestão de Empresas.

Por volta dos 26 anos, ganhou clareza sobre o que considera ser a sua verdadeira missão de vida: desenvolver pessoas. Para Marlena, esse propósito nasce da fé e da convicção de que cada pessoa chega ao mundo com uma missão específica. “Não tenho dúvidas de que isso vem de Deus”, afirma.

Começou a contruir as bases da carreira profissional ainda na juventude, através da AIESEC, uma das maiores organizações estudantis do mundo. Ali, enquanto ainda era estudante universitária, desenvolveu competências em liderança, gestão de projectos, vendas e relacionamento interpessoal. Aos 23 anos já liderava cerca de 200 membros da organização a nível nacional, além de participar em várias experiências internacionais que expandiram a sua visão do mundo.

A sua entrada no mercado de trabalho foi marcada por uma ascensão rápida. Passou por multinacionais como a Vale e a Galp, empresas que considera verdadeiras escolas profissionais. Na Vale, destacou-se na gestão do Programa de Preparação para o Mercado de Trabalho, responsável pela capacitação de mais de mil jovens em cursos profissionalizantes. Também esteve envolvida na criação de trilhas técnicas de formação interna para colaboradores.

Já na Galp, consolidou ainda mais a sua trajectória. Exactamente um dia antes de completar 30 anos, assinou contrato como Directora de Recursos Humanos, tornando-se uma das líderes mais jovens a ocupar uma posição de tamanha responsabilidade. Sob a sua liderança nas áreas de RH e Comunicação, a empresa foi reconhecida, durante três anos consecutivos, como Elite Employer e uma das dez melhores empresas para trabalhar. A Galp também destacou-se como melhor marca empresarial pela COMARP.

Apesar das conquistas, também não faltaram desafios. Marlena reconhece que assumir posições de liderança tão cedo exigiu maturidade acelerada, preparação constante e inteligência emocional. Muitas vezes precisou provar a sua competência em ambientes dominados por profissionais mais velhos e, por vezes, enfrentar resistência simplesmente por ser mulher e jovem. “Tive de estudar muito e muito rápido para estar à altura das mesas de decisão”, ressalta.

A experiência ensinou-lhe que liderar vai muito além de gerir equipas. Para ela, liderança verdadeira é liderança servidora. “Pessoas lideram-se pela autoridade, não pelo poder”, defende. Essa visão mais humana tornou-se uma das marcas do seu estilo de liderança, baseado na empatia, adaptação e desenvolvimento individual de cada colaborador.

Foi justamente dessa combinação entre experiência corporativa e paixão pelo desenvolvimento humano que nasceu a Salto Moçambique – uma empresa de consultoria em recursos humanos e desenvolvimento organizacional. Através da empresa, a profissional desenvolve programas de preparação para o mercado de trabalho, mentorias, treinamentos e consultorias voltadas para pessoas e organizações.

Além do ambiente empresarial, Marlena tornou-se uma voz activa nas redes sociais, utilizando a comunicação como ferramenta de transformação. Acredita no poder da influência positiva e da educação acessível. Os conteúdos que produz têm impactado milhares de jovens e profissionais que encontram nas suas palavras orientação e clareza sobre carreira e desenvolvimento pessoal.

Em reconhecimento ao impacto do seu trabalho, foi distinguida pela COMARP entre as 30 Mulheres Mais Influentes, nos anos de 2024 e 2025. Para ela, o prémio representa mais do que um reconhecimento público; simboliza igualmente a validação de uma trajectória construída com esforço, consistência e propósito.

Grande parte da sua actuação também está ligada ao empoderamento feminino. É membro-fundadora da AISEM – Associação de Inclusão Social e Económica da Mulher, integra redes internacionais de mulheres empresárias e participa em programas de mentoria voltados para empreendedoras moçambicanas e angolanas. Acredita que investir no desenvolvimento da mulher é investir na transformação da sociedade.

Mesmo com uma rotina intensa, procura manter a família como prioridade. Casada há quase dez anos, define-se como uma mãe presente e participativa. Entre vários compromissos profissionais, reserva tempo para acompanhar os filhos, jantar em família, orar e cultivar momentos simples que considera essenciais para manter o equilíbrio emocional. “Aprendi que nem tudo fica equilibrado o tempo todo, mas é importante saber onde precisamos estar em cada momento”, declara.

Numa perspectiva futurística, a especialista mantém uma visão optimista sobre o desenvolvimento de talentos em Moçambique, embora reconheça os desafios trazidos pela transformação digital, pela saúde mental e pelas mudanças aceleradas do mercado de trabalho. Ainda assim, acredita que o conhecimento continuará a ser a principal ferramenta de crescimento individual e colectivo.

Enquanto líder, mentora e mulher, deseja deixar um legado: transformar pessoas nas suas melhores versões. Porque, para ela, pessoas melhores constroem famílias melhores, organizações melhores e, consequentemente, uma sociedade melhor.

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