Por Yud Mauro da Costa
Antes de Cabo Verde ser o país que hoje conhecemos, antes da música, da morabeza e da identidade crioula ganharem forma, tudo começou de um lugar, a Cidade Velha, situada na ilha de Santiago, a poucos quilómetros da capital Praia. Esta localidade carrega nas suas ruas de pedra os primeiros capítulos da história do arquipélago.
Fundada no final do século XV pelos portugueses, sob o nome de Ribeira Grande, a Cidade Velha foi a primeira cidade europeia construída nos trópicos. A sua criação não foi apenas um marco de expansão territorial, mas o início de um processo histórico que ligaria três continentes: Europa, África e América, através do Atlântico.
A escolha do local não foi por acaso. A baía abrigada, a disponibilidade de água doce e a posição geográfica tornaram a Ribeira Grande um ponto ideal para abastecimento e comércio. Rapidamente, a cidade transformou-se num entreposto essencial nas rotas marítimas.
Navios vindos da Europa paravam ali antes de seguir para a costa da África Ocidental ou para o Novo Mundo. Com o tempo, a cidade tornou-se um dos centros mais importantes do comércio atlântico, incluindo o comércio de pessoas escravizadas, um dos capítulos mais marcantes e dolorosos da sua história.
Entre riqueza e sofrimento
Durante os séculos XVI e XVII, a Ribeira Grande prosperou. Comerciantes, administradores coloniais e missionários estabeleceram-se na cidade, construindo igrejas, casas senhoriais e estruturas administrativas. O crescimento económico era visível, mas sustentado por um sistema desigual e violento.
No centro da cidade erguia-se o Pelourinho, símbolo do poder colonial e da autoridade. Naquele lugar, eram aplicadas punições públicas, tornando-se um marco de um passado marcado por dor e resistência.
A riqueza da cidade também atraiu ameaças. Piratas e corsários, incluindo figuras conhecidas como Francis Drake, atacaram a cidade diversas vezes. Para defesa, foi construída a imponente Fortaleza Real de São Filipe, posicionada no topo de uma colina com vista privilegiada sobre o oceano.
Apesar das tentativas de protecção, os ataques constantes, aliados a dificuldades económicas e administrativas, levaram ao declínio da Ribeira Grande. No século XVIII, a capital foi transferida para a cidade da Praia, e a antiga metrópole começou a perder importância.
Com o passar dos anos, a cidade entrou num período de abandono parcial. No entanto, o que poderia ter sido esquecido transformou-se num dos maiores tesouros históricos de Cabo Verde. As ruínas, igrejas e ruas mantiveram-se como testemunhos vivos de uma época que moldou não apenas o país, mas também parte da história global.
Hoje, ao caminhar pela Cidade Velha, é possível sentir o peso do tempo. A Rua Banana, considerada uma das mais antigas da África Subsaariana, ainda preserva casas de pedra e cal. A Igreja de Nossa Senhora do Rosário mantém-se erguida como símbolo de fé e determinação. E o Pelourinho permanece como uma recordação de um passado que não deve ser ignorado.
Património Mundial e identidade cabo-verdiana
O reconhecimento da Cidade Velha como Património Mundial pela UNESCO veio reforçar a sua importância histórica e cultural. Não é só um destino turístico, o local é um espaço de reflexão, educação e valorização da identidade cabo-verdiana.
Naquele ponto, nasceu uma cultura única, resultado do encontro, muitas vezes forçado, entre diferentes povos. Foi neste espaço que se começaram a formar as bases da língua crioula, da música e da forma de estar que hoje caracterizam Cabo Verde.
A Cidade Velha não é apenas um capítulo do passado, é uma narrativa contínua. É um lugar onde a história não está confinada aos livros, mas vive nas paredes, nas ruas e nas memórias das pessoas.
Visitar este espaço, além de conhecer um ponto turístico, é compreender as origens, confrontar a história e reconhecer a importância de preservar aquilo que nos ajuda a entender quem somos.
Fonte: UNESCO; Instituto do Património Cultural de Cabo Verde; estudos históricos sobre a Ribeira Grande de Santiago e o comércio atlântico.