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Xonguila: contar histórias que quase nunca chegam às manchetes

Texto: Fastudo Chavana

Foi a partir de uma inquietação e sentido de dever para com a pátria que Omar Diogo, Nuno Soares e outros membros ousaram e decidiram criar um projecto que contaria as histórias de Moçambique sem intermediação externa. Desde cedo, sabiam que era um caminho que não seria fácil, ainda assim decidiram trilhá-lo. Para eles, o objectivo era dar visibilidade às potencialidades do país em vários campos, contar as boas práticas identitárias de um povo alegre e com vivências próprias que mormente são ocultas nas grandes manchetes. Neste diapasão, viram, também, uma oportunidade para corrigir a imagem tingida internacionalmente que associava o país aos acontecimentos negativos como desastres, miséria, destruição e caos. Com ambição e responsabilidade, encararam o desafio e assim e deram vida ao projecto que levou o nome Revista Xonguila.     

Em entrevista exclusiva à Revista COMARP, Omar Diogo, um dos “arquitectos” da Revista Xonguila, volta ao tempo e conta na primeira pessoa a história por detrás da criação, dos desafios e do percurso desta revista. Acompanhe!

Sendo co-fundador, como é que surge o projecto da Revista Xonguila e qual era o objectivo inicial com a sua criação? Conseguiram alcançá-lo?
A Revista Xonguila nasce de uma inquietação antiga e persistente. Da vontade de contrariar uma narrativa repetida e simplificada sobre Moçambique, quase sempre construída a partir de fora e frequentemente reduzida à tragédia, ao conflito ou à carência. Desde o primeiro momento sabíamos que não seria um caminho fácil. Seria, inevitavelmente, remar contra a maré.

Havia, no entanto, um forte sentido de dever. O dever de mostrar um outro país, real, vivo e cheio de energia. Um Moçambique feito de pessoas acolhedoras, de criatividade, talento e resiliência. Um país de paisagens singulares, de uma vida selvagem que importa preservar, de empreendedores determinados e de artistas de nível internacional que raramente encontram espaço nos grandes circuitos mediáticos.

A revista surge, assim, como um exercício de responsabilidade editorial. Não para ignorar os desafios do país, mas para equilibrar o olhar, contar histórias que quase nunca chegam às manchetes e  afirmar que Moçambique é muito mais do que a imagem fragmentada que tantas vezes circula além-fronteiras.

Acredito, portanto, que, em grande medida, esse objectivo foi alcançado. Hoje, a Xonguila afirma-se como uma referência no espaço dos média de língua portuguesa, com um alcance que ultrapassa claramente as fronteiras nacionais.

Todos os meses, damos voz a personalidades de relevo internacional que partilham connosco os seus percursos, visões e experiências. Ao associar nomes reconhecidos da cultura e da comunicação internacional, esses nomes apadrinham os projectos locais, ampliam o seu público fora de Moçambique, criando pontes com um propósito de dar visibilidade aos projectos moçambicanos, aos empreendedores, aos artistas e às iniciativas que integram cada edição.


A denominação “Xonguila” tem alguma significação especial?

Tem, e é uma escolha consciente. “Xonguila” é uma palavra com força própria, sonora e identitária. Num país de enorme riqueza linguística e cultural, o nome afirma desde logo um sentimento de pertença. A revista nasce de dentro para fora, ancorada no território, na diversidade e nas múltiplas vozes que compõem Moçambique.

Pela sua energia e singularidade, a palavra contraria a narrativa pesada e frequentemente negativa que o discurso mediático internacional insiste em associar ao país. Não evoca fragilidade nem carência, evoca presença, vitalidade e afirmação.

O nome funciona, assim, como um manifesto discreto. Uma afirmação de identidade e de orgulho num país que tem muito para contar ao mundo, com a sua própria voz e sem intermediários.


A Xonguila é hoje aquilo que idealizou no acto da sua criação (até à primeira publicação em 2018)?
Tínhamos uma leitura clara das nossas capacidades e conhecíamos bem o terreno em que íamos entrar. A Xonguila não nasceu de um impulso ingénuo, nasceu de um projecto pensado, com ambição, mas também com plena consciência das limitações próprias de quem começa.

A pandemia de covid-19 teve um impacto particularmente duro. Foram anos difíceis do ponto de vista financeiro, que travaram ritmos, adiaram projectos e obrigaram a decisões complexas. Ainda assim, não nos retiraram o essencial. A convicção no projecto manteve-se, tal como a vontade de continuar a construir.

A Xonguila de hoje é o resultado desse percurso, feito de conquistas, obstáculos e aprendizagem. Não é um projecto fechado nem definitivo, é um trabalho em permanente construção, com muito ainda por cumprir.

4. Para além do Omar Diogo e Nuno Soares, Xonguila tem outros fundadores? Se sim, quem são eles?
Sim. A equipa fundadora da Xonguila integrou, para além de mim e do Nuno Soares, o Mariano Silva, um dos fotógrafos de referência em Moçambique, que desde o início ajudou a captar a essência dos entrevistados e da própria revista, e o Nuno Azevedo, responsável pelo design das capas, um elemento central da identidade visual da Xonguila e um dos factores que a distinguem no panorama editorial nacional. O seu trabalho gráfico e autoral, tornou-se uma das marcas mais reconhecíveis da publicação.

Importa, no entanto, sublinhar que a Xonguila é hoje o resultado de um esforço colectivo mais amplo. Existe uma base humana e profissional que nem sempre está visível, mas que foi absolutamente determinante para a consolidação do projecto. Nesse percurso, a equipa em Portugal teve um papel essencial.

Três pessoas foram pilares fundamentais no crescimento e na solidez da Veludo & Mentol, a empresa-mãe de todos os projectos editoriais, o Nuno Lopes, a Ana Piedade e o Bruno Santos. Trabalharam durante anos de forma consistente num projecto anterior que acabou por servir de referência estrutural e estratégica para a Xonguila.

São profissionais com quem partilho um percurso longo, iniciado ainda na formação em Multimédia e Marketing e prolongado por várias experiências profissionais, no qual o período em que fui gestor dos Cinemas Lusomundo, em Coimbra, Portugal, e eles integravam a mesma equipa. Um contributo quase sempre discreto, feito longe dos holofotes, mas determinante para a maturidade, a organização e o sucesso global da empresa.

5. Num contexto mediático exigente e marcado por crises sucessivas, de que forma a Xonguila tem procurado ir além da publicação editorial e assumir um papel activo no apoio ao país?
Lembro-me bem de estar em Moçambique, em plena época de covid-19, e de receber chamadas da minha família a partir da Europa, alarmada com a forma como alguns média internacionais descreviam o país, como se Moçambique estivesse mergulhado no caos. Era, sem dúvida, uma época muito complicada e dura para o país, mas não correspondia à imagem extrema que estava a ser transmitida. Muitas dessas notícias vendiam medo e simplificavam uma realidade que era bem mais complexa. Algumas semanas depois viajei para Portugal e confrontei-me com um contraste evidente. De forma até inesperada, Moçambique estava vários passos à frente, tanto nos cuidados de higiene e prevenção como na atitude da própria população, que se mostrava muito mais cuidadosa e consciente do que em muitos países europeus. Ainda assim, a imagem que continuava a ser passada lá fora era profundamente injusta.

Essas narrativas estavam a destruir a confiança no destino Moçambique e a comprometer seriamente o turismo, sobretudo nos meses que se seguiriam à pandemia. Criavam uma percepção errada do país, que não correspondia à realidade no terreno.

Foi nesse contexto que surgiu a ideia de criar o projecto Moçambique no Coração. Contactei várias figuras públicas do espaço da língua portuguesa que já tinham estado no país, pessoas que conheciam Moçambique para além dos títulos das notícias.

Pedi-lhes algo simples, que gravassem um vídeo a falar da sua experiência em Moçambique. As mensagens foram emocionantes, genuínas e tranquilizadoras. Falaram de um povo acolhedor, de um país seguro, humano e cheio de vida. E, acima de tudo, deixaram um apelo: Moçambique merece continuar a ser visitado, conhecido e respeitado.

Esses vídeos foram partilhados e promovidos em vários países de língua portuguesa, com um objectivo concreto, ajudar a recuperar a confiança no destino e apoiar o turismo nacional num momento crítico.

Acredito sinceramente que, nesse contexto, a Xonguila teve um papel activo e relevante. Não apenas como revista, mas como plataforma de comunicação ao serviço do país, capaz de agir quando a narrativa dominante falha e quando Moçambique precisa que alguém conte a sua história com verdade.

6. Como é que as marcas encontram na Xonguila um espaço para comunicar de forma relevante e alinhada com os seus valores?

As marcas encontram na Xonguila um espaço de comunicação relevante porque partilhamos um propósito comum. Não somos apenas uma plataforma de media, somos um projecto que acredita na valorização do país, das pessoas e das iniciativas que geram impacto. Essa convergência de valores é determinante.

Temos tido a sorte e a responsabilidade de trabalhar com parceiros que assumem, de forma consistente, uma agenda cultural, social e de desenvolvimento. Empresas como o Millennium bim, o Grupo CFAO, o BCI, a Heineken Moçambique, o UBA Moçambique e a Cornelder de Moçambique têm apresentado, ao longo dos anos, projectos de grande impacto nas áreas da cultura, social, educação e  desenvolvimento económico.

A Xonguila assume o papel de dar visibilidade a essas iniciativas com contexto, profundidade e respeito. Mostrar aos moçambicanos que estas marcas não comunicam apenas produtos ou serviços, comunicam compromisso. Que fazem parte da vida do país e que, graças a esse envolvimento, muitos cidadãos, comunidades e projectos têm sido apoiados de forma concreta.

É nessa relação de confiança, alinhamento de valores e responsabilidade editorial que as marcas encontram na Xonguila um espaço legítimo para comunicar e construir relações duradouras com o público.

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