Texto: Paulo Manjate
A COMARP, em parceria com a Tecnicol Moçambique Lda, realizou o COMARP Talks subordinado ao tema “Marketing Digital para Pequenos Negócios e Startups“. O evento decorreu nas instalações da Tecnicol Moçambique e reuniu jovens empreendedores e outros interessados para debater estratégias práticas de crescimento digital, construção de marca e sustentabilidade no ambiente online.
A iniciativa contou com uma palestra ministrada por Verónica Mandua, empresária e tricologista, fundadora da marca Crespolândia. A oradora partilhou a sua trajetória e ofereceu um olhar prático sobre como pequenos negócios podem utilizar o marketing digital para ganhar autoridade, credibilidade e, sobretudo, vendas.
O propósito acima de tudo
Na sessão de abertura, os organizadores destacaram a crescente importância do marketing digital para a sobrevivência e crescimento das pequenas e médias empresas em Moçambique, num contexto onde a presença online deixou de ser opcional para se tornar uma necessidade estratégica.
Durante a palestra, Mandua defendeu que o propósito deve estar no centro de qualquer negócio, afirmando que “empreender só porque quer dinheiro, não serve. Se empreender só porque quer dinheiro, depois vai empreender no negócio a, b, c e todo o alfabeto. Não tem chama que te obrigue a pôr isso, a necessidade de estudar o mercado”. A empresária sublinhou que a chama do negócio deve ser alimentada por uma missão clara, aliando a rentabilidade a uma razão mais profunda que realmente faça sentido para o empreendedor e para a comunidade.
A oradora abordou igualmente a importância da criação de conteúdo como ponte entre a marca e o cliente, destacando pilares fundamentais, o conteúdo educativo, que ajuda a construir autoridade; os bastidores, que criam intimidade e conexão emocional; e o entretenimento, que retém a atenção num ambiente digital onde as pessoas buscam, acima de tudo, lazer e distração.
“Eu gosto muito dos bastidores, porque para além de nós mostrarmos uma parte íntima nossa, o nosso negócio, como é que ele funciona, ele também faz com que o nosso seguidor se sinta íntimo, se sinta parte de nós“, explicou.
Dominar o algoritmo e a arte do engajamento
Relativamente ao algoritmo e ao engajamento, Verónica Mandua sublinhou que a chave está em criar conteúdo que provoque reações. “Vocês precisam tocar ou enfurecer, despertar o desespero, despertar a fofoca, ao ponto de conseguirem ganhar um like”, afirmou. Acrescentou que, se o conteúdo tocar num problema que possa servir para o amigo ou para o primo do seguidor, ele será partilhado. E se for suficientemente bom e educativo, será guardado.
Quanto à responsabilidade no atendimento, a oradora enfantizou, “nós temos uma responsabilidade emocional, social sobre tudo o que vai acontecer nas nossas redes. Não pode parecer que eles estão a mendigar por resposta“. Revelou que, na sua empresa, ninguém fica sem resposta, um valor que considera inegociável, e partilhou que delega essa tarefa com instruções claras sobre o tipo de resposta que espera.
Identidade visual e disciplina de ser único
Mandua defendeu a disciplina como elemento essencial para o reconhecimento da marca, usando o seu próprio exemplo, “todos vocês vão perceber que eu sou amarelinha, que eu sou dona do castelo amarelhinho. Ninguém tem dúvida de que amarelo, preto e branco são as minhas cores“. Para manter essa identidade, aconselhou os empreendedores a buscarem conhecimento constantemente, “onde vocês sentirem que estão a começar a travar, voltem a estudar”.
A empresária também alertou contra a prática de copiar a concorrência, afirmando que “quem copia a concorrente é quem não gosta de estudar” e que o concorrente não deve ser copiado, mas sim estudado para que se evitem ideias limitantes.
Ao abordar o uso da Inteligência Artificial, Verónica Mandua aconselhou os empreendedores a não utilizarem ferramentas de IA sem manipular os resultados, pois “se nós não explicarmos a inteligência artificial qual é a nossa identidade, ela não vai adivinhar“. Recomendou o uso da tecnologia para criar e gerar ideias de conteúdo, mas sempre com uma explicação clara sobre quem se é e o que se pretende transmitir.
A história que inspira
A oradora partilhou ainda a história da sua marca, a Crespolândia, que surgiu no final de 2017 e início de 2018 como uma marca de cosméticos. Os primeiros produtos foram máscaras capilares e os primeiros flyers, que mostravam apenas ingredientes como banana, não vendiam. A viragem aconteceu quando começou a oferecer produtos para testagem e a colher testemunhos em vídeo. “Os testemunhos geraram as primeiras vendas“, recordou.
Relativamente ao crescimento e posicionamento da marca, Verónica Mandua afirmou que, apesar de não ter os melhores recursos, repetiu o processo todas as semanas até hoje. Destacou que “podem existir temas repetidos, mas tratados de forma diferente. Existe sempre uma forma nova de abordar o mesmo tema“. Revelou ainda que, no início, fazia entregas sozinha de carro para a Matola e portador, mas hoje conta com lojas de venda e colaboradores.
Sobre a credibilidade, a empresária partilhou uma lição valiosa, “quando se atende, não se diz ‘eu’. Vocês representam uma marca”. Revelou que sempre disse que tinha dez colaboradores e uma assistente, mesmo antes de os ter, e que isso gerou credibilidade e confiança junto dos clientes.
Apesar das diferentes abordagens ao longo da palestra, foi unânime entre os presentes que o desenvolvimento sustentável de pequenos negócios e startups passa pela combinação de propósito, disciplina, conteúdo autêntico e atendimento impecável.