Texto: Marlene Mboene
Durante a infância, enfrentou dificuldades e conheceu de perto a escassez de recursos. Hoje, ajuda jovens mulheres a encontrar soluções para os seus problemas económicos através do auto-emprego. Antes de se tornar a profissional que é hoje, passou por diferentes sectores, desde a banca, o automóvel até à comunicação. Actualmente, divide o seu tempo entre o marketing digital, o empreendedorismo e o trabalho social.
Sílvia Panguane nasceu em Maputo, a 24 de Maio de 1980. Filha de Benjamim Panguane e Celeste Ouana, é a quarta de cinco irmãos. Desde os 11 anos, viveu sempre rodeada pelo mar, primeiro no Triunfo e, mais tarde, no Bairro dos Pescadores, espaço que hoje ocupa um lugar especial na sua história.
Apaixonada pela natureza e pelo silêncio, Sílvia teve uma infância tranquila, embora marcada por algumas dificuldades. Como muitas crianças daquela época, cresceu num contexto marcado pela falta de recursos e, a dada altura, a família viu-se obrigada a recorrer ao apoio de parentes. Na tentativa de aliviar as dificuldades, os pais decidiram que cada um dos filhos viveria temporariamente com um familiar, tendo ficado apenas Sílvia com eles.
Mas a separação não durou muito. O afecto e a união familiar falaram mais alto e os pais decidiram enfrentar juntos os desafios que tinham pela frente.“Foram momentos muito difíceis para os meus pais, mas eles nunca desistiram de nós”, conta.
Foi nesse ambiente que aprendeu algumas lições sobre resiliência, o valor da família e perseverança. E, apesar das dificuldades, os estudos sempre ocuparam um lugar especial na sua vida.
Sílvia gostava de estudar e aprender e, de alguma forma, sempre acreditou que o seu futuro passaria pela escola e pelo conhecimento. Teve no pai, que era também o seu melhor amigo, um apoio incondicional. Para motivá-la a continuar os estudos, ele costumava dizer: “O melhor marido são os estudos”. Essa frase acompanhou-a durante o percurso académico.
Passou pelas escolas 7 de Setembro, Polana, Lhanguene e Josina Machel e concluiu a 12.ª classe em Portugal. Mais do que os conhecimentos adquiridos, guarda com carinho as amizades, os grupos e os professores que fizeram parte dessa fase da sua vida. Algumas dessas relações permanecem até hoje.
Quando a comunicação entrou no seu caminho
Apaixonada pela escrita criativa, Sílvia formou-se em Publicidade e Marketing pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), em Portugal. Na altura em que concluía o curso, com a introdução do Processo de Bolonha, a formação passou a adotar a designação de Ciências da Comunicação.
Apesar de a sua formação estar ligada à publicidade e ao marketing, a sua carreira começou na área do jornalismo.
No ano em que terminava a faculdade, mesmo sem experiência profissional na área, recebeu uma indicação de uma colega cabo-verdiana que fazia parte do projecto SAPO Cabo Verde. Na altura, a Portugal Telecom, actual Grupo Altice – equipa responsável pelo projecto SAPO Internacional, acabava de lançar o portal SAPO Moçambique. Para Sílvia, aquela foi “uma oportunidade de ouro”.
Ao chegar ao projecto, não dominava a actividade jornalística. Tinha apenas um curso realizado no Centro de Formação Profissional para Jornalistas (CENJOR), oferecido por uma docente aos estudantes do seu curso, durante a formação académica, mas admite que não teve um bom aproveitamento.
Foi no SAPO que aprendeu, verdadeiramente, os fundamentos do jornalismo digital. E, depois disso, “foi um caminho sem volta”.
Foram seis anos dedicados ao jornalismo digital, num período em que trabalhar naquela área exigia uma grande capacidade de adaptação.
“Era um jornalismo tão autónomo que tínhamos de aprender a escrever, editar vídeos, fotografar, carregar as notícias no backoffice e correr atrás da informação. Depois disso, nunca mais parei”, declara.
Uma carreira construída na reinvenção
Ao olhar para o caminho percorrido, Sílvia reconhece que a sua trajectória esteve longe de ser linear.
“Não foi, de todo, um processo fácil, mas foi o combustível necessário para me reinventar e tornar-me a mulher que sou hoje.”
Ao longo da caminhada, enfrentou desafios, decepções e algumas situações difíceis, inclusive vindas de pessoas próximas, com quem vivia e convivia. Foram experiências que a obrigaram a aprender a perdoar para não ficar presa ao passado.
Depois da passagem pelo SAPO, criou a sua primeira empresa de comunicação, através da qual concorreu a um trabalho de desenvolvimento de uma estratégia de comunicação para um consórcio de organizações da sociedade civil.
O projecto levou-a a viajar por diferentes pontos do país e permitiu-lhe conhecer realidades que marcar profundamente a sua vida.
Contudo, a consultoria não garantia estabilidade constante. Por isso, mais tarde, regressou ao mercado de trabalho e começou a trabalhar como criadora de conteúdos na Gloom Channel.
A experiência acumulada no mercado digital, aliada à sua criatividade, abriu-lhe novas portas nas agências de publicidade.
Passou pela DDB, no departamento digital, e posteriormente pela Brand Lovers ‐ Creative Studio, onde assumiu a liderança do departamento digital. Depois, integrou a equipa da Cartrack, movida também pela vontade de conhecer o mundo corporativo e perceber o negócio do outro lado da relação entre agência e cliente. Mais tarde, recebeu um convite para regressar à Brand Lovers, desta vez como Account Executive.
Cada mudança era uma nova oportunidade para aprender: “A cada proposta, novo emprego ou cargo, eu reinventava-me e dava o melhor de mim.”
No seu percurso profissional cabem experiências na banca, consultoria, publicidade, comunicação e trabalho como freelancer. Mais do que uma sucessão de empregos, Sílvia vê essas experiências como oportunidades para adquirir conhecimento, conhecer diferentes formas de trabalhar e ampliar a sua visão profissional.
Ouviu muitas vezes que não deveria mudar tanto de emprego. Mas tinha uma pergunta para si própria: como descobriria outras formas de fazer as coisas se permanecesse sempre no mesmo lugar?
Foi assim que aprendeu sobre activação de marcas, fornecedores, prazos, gestão de clientes e funcionamento das diferentes áreas da comunicação. Até aprendeu a conquistar a simpatia dos criativos, para não lhe “lançarem o computador à cabeça”, brinca.
A sua carreira, portanto, foi sendo construída menos pela procura de um caminho perfeito e mais pela disposição de aceitar desafios e aprender no processo. É também dessa capacidade de agarrar oportunidades que nasce a sua paixão pelo marketing.
Sílvia recorda uma máxima de Richard Branson que a acompanha desde a época da pandemia da Covid-19 e que partilha frequentemente no LinkedIn:
“Se alguém te oferecer uma oportunidade incrível, mas não tiveres a certeza de que consegues fazê-lo, diz sim e depois aprende como fazer.”
É uma filosofia que traduz a forma como encara a própria carreira. “Se tiver de ser vendedora, serei. Se um dia tiver de ser guia turística, também serei. Eu reinvento-me e entrego-me como se tivesse nascido a fazer aquilo” declara.
Hoje, essa capacidade de reinvenção manifesta-se também no trabalho que desenvolve em prol de mulheres e raparigas.

Do marketing à responsabilidade de transformar vidas
Como fundadora e directora executiva da Associação Ser +, Sílvia encontrou uma forma de transformar uma inquietação pessoal numa resposta concreta para a comunidade.
A iniciativa começou muito antes de ser uma associação formal. Ao observar a realidade do seu bairro, identificou uma necessidade entre as raparigas e decidiu mobilizar amigos da área da comunicação para criar um programa de capacitação em redes sociais, com o objectivo de promover a empregabilidade e o auto-emprego.
A primeira turma foi lançada como projecto-piloto e revelou-se um sucesso. Quando procuraram apoio para ampliar o trabalho, encontraram uma dificuldade recorrente: a necessidade de ter uma estrutura formalizada. Foi aí que perceberam que precisavam de dar um passo maior e transformar a iniciativa numa associação.
Mas, enquanto trabalhavam com as raparigas, uma outra realidade chamou-lhes a atenção: as mulheres da comunidade. Líderes, vendedoras e proprietárias de barcos também precisavam de apoio, principalmente em matérias relacionadas com a economia azul.
Assim, a Ser + ampliou a sua intervenção.
Hoje, a associação trabalha essencialmente através de oficinas de capacitação, com a missão de criar oportunidades para que mulheres e raparigas desenvolvam os seus talentos, tenham acesso ao conhecimento e conquistem maior autonomia.
A visão é ainda maior: ver uma comunidade onde estas mulheres possam liderar, criar os seus próprios rendimentos e transformar a vida de outras meninas, sem perder a identidade nem a ligação ao mar.
Para concretizar esse propósito, a associação procura estabelecer parcerias sempre que identifica novas necessidades. Entre as principais parceiras e mentoras estão a AMJIGE e a INCLUSÃO.
Actualmente, a Associação Ser + desenvolve dois projectos principais. O Mulheres do Mar está ligado à economia azul e circular e inclui oficinas criativas que mostram como materiais sem utilidade, como redes de pesca, podem ser transformados em arte.
Já o Jovens Líderes no Digital procura ensinar raparigas a utilizarem as redes sociais de forma consciente, tanto para promover os seus negócios como para desenvolver competências que lhes possam abrir portas em agências criativas e na área da comunicação.
Para Sílvia, uma das maiores conquistas está precisamente no facto de o conhecimento começar a multiplicar-se dentro da própria comunidade. Algumas das jovens que participaram na primeira turma estão agora a preparar-se para ajudar a formar outras meninas.
Ou seja, aquilo que começou como uma experiência-piloto começa a criar o seu próprio ciclo de continuidade.
“Talento todos nós temos. Às vezes, só precisamos que alguém nos estenda a mão”. E é justamente essa mão estendida que Sílvia acredita estar a fazer diferença.
Segundo conta, as mulheres e raparigas do bairro estão hoje mais seguras de si, comunicam melhor, acreditam mais nos seus negócios e conseguem definir os seus sonhos com maior clareza.
No caso das mulheres ligadas ao mar, também se tem registado uma maior compreensão sobre a importância do período de veda e da preservação dos recursos marinhos.
A associação procura, igualmente, introduzir outras formas de subsistência, numa tentativa de reduzir a dependência exclusiva dos recursos do mar, que são esgotáveis.
Mas, para Sílvia, nenhuma transformação acontece sem confiança. É necessário aproximar-se das pessoas, ouvi-las e respeitar os conhecimentos que já possuem antes de introduzir novas informações.
A sua veia empreendedora levou-a igualmente a criar a Komms Studio, que surgiu como resposta a vários pedidos relacionados com planos e estratégias de conteúdos para redes sociais.
A ideia foi reactivar a sua primeira agência de comunicação e marketing digital, mas desta vez através de um modelo mais colaborativo. “Como nunca ando sozinha”, amigos com competências complementares foram juntando-se ao projecto.
Hoje, a Komms Studio reúne serviços de gestão, planeamento e moderação de redes sociais, design gráfico, relações públicas, formação, mentoria, organização de eventos, entre outros.
A profissional compara a estrutura a uma espécie de cooperativa: quando surge um desafio que exige uma competência específica, procura-se o profissional adequado e trabalha-se em equipa, com responsabilidades claramente definidas.
A mentoria ocupa um lugar especial dentro da empresa. Para Sílvia, a comunicação desperta o interesse de muitas pessoas, mas nem todas têm acesso à formação ou a uma oportunidade no mercado. É nesse espaço que procura intervir.
Na Komms Studio, ensina profissionais a escreverem como comunicadores, a analisarem verdadeiramente uma marca, compreenderem o seu posicionamento e activarem a criatividade sem desrespeitar a identidade do produto ou serviço.
Existe ainda uma ligação directa entre o empreendedorismo e o trabalho social: parte dos recursos gerados pela Komms Studio ajuda a sustentar as actividades da Associação Ser +.
Dessa forma, cada trabalho realizado pode contribuir para que mais uma actividade de capacitação seja concretizada na comunidade.
O marketing digital e os desafios de um mercado em transformação
Ao analisar o sector do marketing em Moçambique, especialmente no ambiente digital, Sílvia reconhece avanços significativos. Considera que existem bons profissionais no país e destaca o facto de as pessoas terem perdido parte do medo de se expor e mostrar o próprio trabalho.
Associações, revistas, eventos especializados e iniciativas de reconhecimento profissional também contribuíram para dar maior visibilidade ao sector. Contudo, acredita que o digital trouxe novos desafios.
A pandemia criou oportunidades e levou muitas empresas a compreenderem a importância de uma presença digital forte. Mas, na sua perspectiva, nem sempre houve tempo ou critério suficiente para distinguir profissionais preparados daqueles que simplesmente se apresentam como criadores de conteúdo.
O resultado, segundo explica, é que algumas marcas optam por propostas mais baratas, mas acabam por não alcançar os resultados esperados. Depois, generaliza-se a ideia de que não existem profissionais qualificados no mercado, “mas nós existimos.”
Outro problema que identifica está relacionado com as exigências fo mercado, que muitas vezes procuram concentrar numa única pessoa competências que deveriam pertencer a um departamento inteiro.
A chegada da inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao desafio. Para a marketeer, a ferramenta pode ser extremamente útil, mas nunca deve substituir o conhecimento, a identidade e o pensamento crítico do profissional.
“Antes de dominar qualquer ferramenta, um profissional de marketing precisa de ter identidade, conhecimento e pensamento crítico. Sem isso, em vez de usar a inteligência artificial como complemento, torna-se escravo dela.”
A presença digital de Sílvia não se limita ao trabalho que realiza para os outros. No LinkedIn, construiu também uma voz própria, onde partilha experiências, aprendizagens e reflexões sobre a vida profissional. Mas o espaço começou, antes de tudo, como uma ferramenta para si mesma.
Durante muito tempo, acreditou que aquilo que tinha para dizer não era suficiente. Mesmo sendo crente e serva de Deus, carregava bloqueios que a faziam sentir que precisava sempre da validação de alguém para tomar decisões ou expressar opiniões.
Começar a escrever mudou esse cenário. Hoje, utiliza a plataforma também para contrariar a ideia de que o LinkedIn deve ser apenas um espaço de celebração de sucessos.
Para ela, por detrás de cada conquista existem também momentos difíceis, erros, decepções e aprendizagens.
“Nem em todos os lugares por onde passei tive sucesso. Nem todas as pessoas que cruzaram o meu caminho me fizeram bem. E eu também nunca fui um alecrim dourado nem uma prima-dona”, confessa.
É essa dimensão humana que procura levar aos seus conteúdos.
Uma mulher, muitos papéis
Conciliar todas as suas actividades exige organização. Sílvia confessa que a sua mente descansa pouco e, mesmo quando tenta desligar, tem sempre por perto o bloco de notas do telefone, um post-it ou uma agenda.
O planeador diário tornou-se indispensável. Divide as tarefas por áreas, temas e responsabilidades e até os encontros com as amigas precisam, muitas vezes, de ser registados e acompanhados por um alarme.
Mas a maior aprendizagem veio da maternidade. É mãe solteira de dois rapazes e reconhece que, durante muitos anos, carregou a convicção de que precisava de trabalhar constantemente para garantir que nada lhes faltasse.
Hoje, continua dedicada ao trabalho, mas aprendeu a estabelecer limites. Fora do ambiente profissional, também está a aprender a desligar-se. A igreja e a fé ocupam um lugar importante na sua vida e dedica tempo à meditação da Palavra.
Durante muitos anos, o computador foi o seu companheiro inseparável, mesmo fora do horário de trabalho. Hoje procura fazer diferente. Com um filho adolescente e outro pré-adolescente, percebeu que o tempo passa depressa e que existem momentos que não podem ser recuperados.
Durante muito tempo, os filhos passaram grande parte do tempo com a avó. Agora, Sílvia decidiu abrir mão de algumas coisas para estar mais presente na vida deles.
Apesar da intensa rotina, Sílvia sabe onde encontra força quando os dias ficam mais difíceis. Conta, de forma descontraída, que tem muitas fãs: a mãe, a irmã, as sobrinhas e uma irmã da amiga da igreja, mulheres que, segundo ela, não permitem que desfaleça.
Mesmo nos dias menos bons, existe quase sempre uma mensagem capaz de mudar o seu estado de espírito. Ainda assim, reconhece que nos filhos tem a sua maior força e motivação. São eles, juntamente com essa rede de afectos, que ajudam a alimentar e esculpir os seus sonhos.
E entre esses sonhos está o desejo de concretizar a cooperativa idealizada juntamente com Francisca Noronha, da AMJIGE.
Sílvia sonha ver o Bairro dos Pescadores transformado num espaço rico em arte, emprego e experiências ligadas ao mar e às vivências da comunidade, que possam também ser partilhadas com quem visita o bairro.
Há ainda um sonho de natureza mais íntima, que é escrever um livro de memórias sobre o pai, as conversas que tiveram e o legado que deixou no Bairro dos Pescadores. “Hoje sou respeitada porque o meu pai semeou esse respeito, e o meu dever é continuar o legado que ele iniciou”, advoga.
É também no legado que encontra uma das suas maiores motivações. Ligada à Igreja Maná, Sílvia aprendeu a importância de ser uma pessoa que abençoa outras vidas. Por isso, não quer que os seus filhos ou as meninas que hoje ajuda a formar olhem para o sucesso apenas como uma conquista individual.
Quer que usem os seus talentos para transformar a vida de outras pessoas: “Que façam o bem sem esperar nada em troca, com o coração grato, porque a bênção virá.”
Aos 46 anos, continua a cultivar a curiosidade, a aprendizagem e a capacidade de começar de novo. Talvez por isso, quando lhe perguntam pelo livro favorito, responda, entre risos, que é uma “romântica incurável” e continue a ler O Diário da Nossa Paixão.
No fundo, a história de Sílvia Panguane é também sobre nunca permanecer demasiado tempo no mesmo lugar quando existe uma oportunidade de aprender, servir e crescer.
Da menina que cresceu entre dificuldades e junto ao mar à profissional que passou pela banca, publicidade, comunicação, consultoria e marketing digital, existe uma característica que permanece constante: a capacidade de se reinventar.
Hoje, essa reinvenção já não serve apenas para construir a sua própria carreira. Serve também para abrir caminhos para outras mulheres.
Aquilo que um dia recebeu – uma oportunidade, uma orientação, uma mão estendida – agora procura devolver à comunidade, multiplicado em conhecimento, autonomia e novas possibilidades.