É uma das poucas mulheres no jornalismo desportivo em Moçambique. Ângela Semedo ultrapassa uma mera estatística: é uma profissional que demonstra o seu valor com disciplina, consistência e determinação, num meio ainda maioritariamente marcado pela presença masculina.
Fruto do seu desempenho, foi recentemente distinguida entre as 30 Mulheres Mais Influentes pela COMARP. Em 2025, foi premiada como Melhor Jornalista Desportiva pelo Media Club e vencedora do Prémio de Jornalismo de Nutrição e Segurança Alimentar, na edição 2024/2025, entre outras distinções conquistadas ao longo da sua trajectória.
Natural de Portugal, Ângela cresceu num ambiente familiar estruturado, orientado por valores como disciplina e responsabilidade. “Foi nesse contexto que fui construindo as bases da pessoa que sou hoje, tanto a nível pessoal como profissional”, explica.
Teve uma infância alegre, marcada por amor, união familiar e estabilidade emocional, num ambiente onde prevaleciam o respeito, a educação e o apoio mútuo. Segundo conta, “esses momentos foram fundamentais para moldar a minha forma de estar na vida”.
O ambiente saudável em que cresceu reflecte-se na mulher que se tornou. Hoje, a sua vida é guiada pela humildade, resiliência, sentido de compromisso e respeito pelo próximo – valores que carrega desde a infância e que orientam as suas decisões.
Ângela é casada desde 2017 e considera-se, acima de tudo, uma mulher de afectos, com uma forte ligação à família. Nos seus dois filhos encontra o seu maior propósito.
O seu percurso académico foi marcado por foco, disciplina e dedicação. Como resultado desse compromisso com os estudos, afirma: “Nunca reprovei nenhuma cadeira, tanto no ensino secundário como no ensino superior”.
A paixão pela comunicação surgiu ainda na infância. Desde cedo sentia-se atraída pelas câmeras e, embora ainda não soubesse exactamente qual profissão seguiria, tinha a certeza de que o seu caminho estaria ligado à comunicação.
Por isso, as suas brincadeiras estavam orientadas para esse caminho: simulava apresentações televisivas e, sem saber, começava a preparar a comunicadora que viria a tornar-se.
Foi, contudo, na academia, sobretudo durante a universidade, que consolidou a certeza sobre o caminho que pretendia seguir. Personalidades como o jornalista José Rodrigues dos Santos, que também foi o seu professor, ajudaram-na a compreender e afirmar a sua vocação.
É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, com formação nas áreas de Jornalismo e Relações Públicas e Publicidade. A decisão de concluir ambas as vertentes do curso foi consciente: “Queria ter uma visão mais abrangente da comunicação e preparar-me da melhor forma possível para os desafios do mercado”.
Com muitos anos de experiência na área da comunicação, viveu os últimos 15 em Moçambique, na TV Miramar. Mas antes de se fixar no país, consolidou a sua carreira em Portugal, onde nasceu.
Em Portugal, passou por diferentes órgãos de comunicação, incluindo a RTP. Teve também a oportunidade de estagiar em rádios de referência como a Rádio Cidade e a RDP África. Viveu ainda uma experiência profissional na TAP Portugal, entre outros contextos que contribuíram para a sua formação.
Já em Moçambique, na TV Miramar, foi construindo o seu espaço e assumiu diferentes desafios que contribuíram para a sua afirmação no mercado. “Tem sido uma trajectória marcada por aprendizagem contínua, adaptação e crescimento”, declara.
Uma nova terra, um jogo desafio
A decisão de mudar-se para Moçambique teve motivações familiares. O seu pai, que foi jogador de futebol em Portugal, decidiu, após terminar a carreira, seguir o caminho de treinador e regressar às suas origens.
Por ser muito ligada à família, Ângela sentiu a necessidade de acompanhar esse percurso e abraçou esta nova fase. Além disso, a mudança representava uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional num novo contexto.
A profissional afirma ter sido bem acolhida em Moçambique – um país que considera possuir uma enorme riqueza cultural, pessoas calorosas e um grande potencial. Por isso, “poder desenvolver aqui a minha carreira e contribuir com o meu conhecimento foi, sem dúvida, uma escolha que me marcou profundamente”.
Como acontece em qualquer mudança, os primeiros momentos trouxeram desafios, sobretudo pela adaptação a um novo contexto cultural, um mercado diferente e novas dinâmicas profissionais, que exigiram flexibilidade e capacidade de aprendizagem.
Apesar disso, considera que o processo foi extremamente enriquecedor. “Aprendi a sair da minha zona de conforto, a valorizar diferentes perspectivas e a crescer enquanto pessoa e profissional”, explica. Hoje, encara essa fase como uma das etapas mais importantes da sua evolução.
Enquanto profissional da TV Miramar, assumiu diferentes funções, incluindo a apresentação do Fala Moçambique e outros formatos informativos e formativos que contribuíram para o seu crescimento profissional.
Um dos maiores desafios da sua carreira foi abraçar o jornalismo desportivo – uma área ainda marcada por uma presença feminina reduzida. Filha de um jogador de futebol, Ângela cresceu próxima do universo desportivo.
“Cresci a acompanhar a carreira do meu pai, a ir aos jogos com a minha mãe e irmão e a viver o futebol de forma muito próxima”, conta.
Quando surgiu a oportunidade de entrar no jornalismo desportivo, viu uma possibilidade de sair da zona de conforto e desafiar-se. Aceitou o desafio com a mesma determinação de sempre, porque acredita que “o crescimento acontece quando nos desafiamos”.
Enquanto mulher, reconhece que um dos principais desafios é a necessidade de provar constantemente competência num espaço onde ainda existem alguns preconceitos. Contudo, acredita que o trabalho, a consistência e o conhecimento são fundamentais para ultrapassar essas barreiras.
Com o tempo, conquistou o seu espaço e demonstrou que “o profissionalismo não tem género”. Hoje, encara os desafios como oportunidades para abrir caminhos para outras mulheres e contribuir para uma mudança de mentalidade.
Na sua visão, a valorização das mulheres no jornalismo desportivo tem vindo a crescer, com cada vez mais profissionais femininas a ocupar espaços importantes. No entanto, acredita que ainda existe um longo caminho a percorrer.
“O importante é continuar a fazer bem, com rigor, e a afirmar presença com confiança”, destaca.
Sobre o jornalismo desportivo em Moçambique, avalia que tem registado uma evolução satisfatória nos últimos anos, com mais plataformas de divulgação e maior interesse do público.
Apesar disso, considera necessário continuar a investir na formação, ética profissional e fortalecimento das instituições, para que o sector se consolide como um espaço de credibilidade, responsabilidade e confiança.
Ao comparar o jornalismo moçambicano e português, entende que são realidades distintas, com desafios próprios. Enquanto Portugal beneficia de um mercado mais estruturado, maior tradição mediática e mais recursos, Moçambique destaca-se pela capacidade de adaptação, criatividade e proximidade com as comunidades.
Para Ângela, mais do que diferenças, são contextos complementares, onde existe espaço para aprendizagem e evolução contínua.
A sua trajectória é uma prova de versatilidade e determinação. Ao longo dos anos, destacou-se pela capacidade de transitar entre diferentes áreas da informação – da política à sociedade, passando pelo desporto – sempre com rigor e sentido de responsabilidade.
Fora dos holofotes, valoriza os momentos simples. Gosta de viajar, conhecer novas culturas e estar em constante descoberta – experiências que, segundo afirma, também enriquecem a sua forma de comunicar e interpretar o mundo.