Home Entrevista “Sucesso profissional só tem valor quando abre caminho a quem vem a seguir”

“Sucesso profissional só tem valor quando abre caminho a quem vem a seguir”

Texto: Fastudo Chavana

Reconhecida pela Forbes Under 30 África Lusófona e nomeada para o “Top-10 Women in PR & Communications” Cabo Verde (2026), destacando-se como uma das profissionais mais influentes em comunicação estratégica e transformação digital na região, Darlyn Estrela é uma cabo-verdiana que chegou ao Marketing sem intenção, mas hoje não se imagina noutra área. Acredita que o sucesso profissional só tem verdadeiro valor quando serve também para abrir caminho a quem vem a seguir.

A partir de uma observação, percebeu que no mercado cabo-verdiano muitos pequenos negócios e startups tinham boas ideias, mas não tinham capacidade financeira para contratar uma agência ou um profissional especializado em Marketing e Comunicação e, assim, fundou a Destrela.mkt.

Para ela, ainda havia alguma confusão entre Marketing e gestão de redes sociais. Deste modo, decidiu criar um espaço para ajudar as marcas, empreendedores e empresas a pensarem primeiro na estratégia e só depois na comunicação: Destrela.mkt, uma empresa que actua em consultoria especializada em branding e comunicação estratégica em Cabo-Verde.

É licenciada em Gestão Comercial e Marketing pela Universidade de Cabo Verde, mestranda em Transformação Digital pela Universidade Europeia do Atlântico. Darlyn Estrela tem uma trajectória consolidada na assessoria institucional e conta com um percurso marcado pela inovação. Neste momento, segue uma nova licenciatura em Economia Digital.

Em entrevista à Revista COMARP, Darlyn Estrela fala sobre a carreira, o marketing, inteligência artificial, reputação, empreendedorismo e os desafios do ecossistema digital em Cabo-Verde e em África.

RC: Conte-nos sobre a sua formação académica e o seu contributo na construção da sua identidade como profissional de comunicação e marketing.

DE: A minha formação académica começou com a Licenciatura em Gestão Comercial e Marketing, na Universidade de Cabo Verde, e é curioso porque cheguei a este curso um pouco de paraquedas – não foi uma escolha totalmente planeada, foi a formação que fazia mais sentido depois do meu percurso profissionalizante. Mas foi ali, já durante a licenciatura, que descobri que queria seguir esta área a sério.

Depois disso, decidi continuar a estudar, e estou actualmente a concluir o Mestrado em Transformação Digital, na Universidade Europeia do Atlântico. Essa escolha teve muito a ver com perceber que o Marketing e a Comunicação, hoje, não podem ser pensados isoladamente da tecnologia, dos dados e da forma como o digital está a transformar as organizações.

Acho que a minha formação não me deu apenas ferramentas técnicas. Deu-me uma forma de pensar: a capacidade de analisar, questionar e não aceitar as coisas apenas porque “é assim que se faz”. Isso tornou-se parte da minha identidade profissional – sou uma pessoa que gosta de entender o porquê das coisas antes de executar.

RC: Como nasceu a sua paixão pelo Marketing e quando é que começa a sua trajectória profissional?

DE: O Marketing não foi uma escolha totalmente planeada. Caí no curso de Gestão Comercial e Marketing um pouco de pára-quedas, porque era uma das formações que fazia mais sentido depois da minha formação profissional e tinha várias disciplinas compatíveis.

Foi durante o curso que comecei realmente a descobrir o Marketing. Acho que foi no segundo ano, numa disciplina de Marketing Digital, que tive aquele momento de perceber: “É isto que eu quero fazer.” Comecei a olhar para o Marketing de forma completamente diferente, percebi que não era publicidade ou comunicação, mas comportamento, estratégia, criatividade, análise e, acima de tudo, compreensão das pessoas.

Daí comecei a procurar experiência por iniciativa própria. Trabalhei gratuitamente em algumas empresas porque naquele momento queria aprender, experimentar e construir experiência. Hoje, olhando para trás, acho curioso ter chegado ao Marketing por acaso. Talvez tenha sido uma das melhores coisas que me aconteceu profissionalmente.

RC: Ao longo da sua carreira, que desafios e conquistas mais marcaram o seu percurso profissional?

DE: O meu percurso teve várias fases em que tive praticamente de recomeçar do zero – cada organização e cada função trouxeram desafios novos e exigiram que aprendesse rapidamente. Se tivesse de escolher um momento particularmente desafiador, diria que foi quando assumi, pela primeira vez, funções de assessoria junto de um Conselho de Administração. Foi uma experiência que me tirou completamente da zona de conforto, pela exigência e pelo nível de responsabilidade que carrega. Aprendi que competência não significa saber tudo – significa saber aprender rapidamente, fazer as perguntas certas, ouvir e assumir responsabilidade pelo que fazemos.

Quanto às conquistas, há três que têm um significado especial para mim, embora representem dimensões diferentes do meu percurso: a Destrela.mkt, por ter nascido de uma necessidade real que identifiquei no mercado; o meu envolvimento na Women in Tech Cabo Verde, que se tornou um verdadeiro propósito e não apenas um voluntariado; e o reconhecimento pela Forbes Under 30 África Lusófona, não pela distinção em si, mas pelo que ela representa –mostrar a outras jovens cabo-verdianas que também podem chegar onde, à partida, parecia distante.

RC: A sua formação combina Gestão Comercial e Marketing, transformação digital e Economia Digital. Como essa combinação de áreas influencia a forma como pensa e executa estratégias de comunicação e marketing?

DE: A Gestão Comercial e Marketing deu-me a base, a fundação daquilo que sou profissionalmente. Mas foi na Cabo Verde Digital que entrei verdadeiramente no mundo tech, a trabalhar com startups e com o ecossistema digital, e foi ali que encontrei o mestrado que andava à procura – o Mestrado em Transformação Digital, que me deu mais bagagem e mais força para olhar para os desafios de outra forma.

Hoje, junto tudo isso e é uma sinergia fora do normal, porque pensar em tecnologia sem pensar nas pessoas não faz sentido para mim. E dentro dessa procura, o contacto próximo que tive com o Ministério das Finanças e Economia Digital despertou em mim uma paixão e uma ambição ainda maiores.

RC: Após um percurso consolidado na área de comunicação e marketing, Darlyn fundou a Destrela.mkt, que nasceu com o propósito de apoiar empresas, marcas e empreendedores através do branding e da comunicação estratégica. Que lacunas identificou no mercado cabo-verdiano que a levaram a criar a empresa?

DE: A Destrela.mkt começou em 2020, embora naquela altura ainda não fosse formalmente uma empresa – a empresa foi constituída em 2024. Nasceu de uma coisa muito simples que eu observava no mercado cabo-verdiano: muitos pequenos negócios e startups tinham boas ideias, mas não tinham capacidade financeira para contratar uma agência ou um profissional especializado em Marketing e Comunicação.

Ao mesmo tempo, ainda havia alguma confusão entre marketing e gestão de redes sociais. Percebi que havia espaço para ajudar estes negócios a pensarem primeiro na estratégia e só depois na comunicação. Por isso, a Destrela.mkt nasceu com uma lógica muito mais ligada a impacto do que simplesmente a prestação de serviços: ajudar negócios em fase inicial a encontrarem posicionamento, comunicarem melhor e tomarem decisões mais conscientes. Hoje, para mim, é muito mais do que uma empresa, até porque carrega o meu nome – é um projecto que representa aquilo em que acredito profissionalmente.

RC: Num mercado cada vez mais digital, o que diferencia uma marca que simplesmente comunica de uma marca que realmente constrói uma relação estratégica com o seu público?

DE: Uma marca que constrói uma relação estratégica com o seu público pensa primeiro no posicionamento. A partir daí, cada conteúdo, campanha, interacção tem um propósito dentro dessa estratégia, e não é apenas “preencher espaço”.

A grande diferença, para mim, está na consistência e na intenção. Uma marca estratégica constrói confiança ao longo do tempo, porque as pessoas sentem que há coerência entre o que a marca diz e o que a marca faz. E isso não se conquista com uma publicação viral –  conquista-se com tempo, escuta e decisões bem pensadas.

RC: A transformação digital está a mudar profundamente a forma como as empresas se relacionam com os seus clientes. Na sua visão, quais são os principais erros que as organizações ainda cometem ao implementar estratégias digitais?

DE: O erro mais comum que vejo é tratar a transformação digital como um projecto de tecnologia, e não como um projecto de negócio. As organizações investem em ferramentas, plataformas e automação, mas não repensam processos nem cultura interna – e sem essa mudança de mentalidade, a tecnologia por si só não resolve nada.

Outro erro frequente é confundir presença digital com estratégia digital. Estar em todas as redes sociais não significa ter uma estratégia; é preciso definir objectivos claros, conhecer bem o público e medir resultados de forma consistente – e isso, em Cabo Verde, ainda é uma prática pouco disseminada. Por fim, também vejo organizações a digitalizarem processos sem pensar no impacto que isso tem nas pessoas, colaboradores e clientes. A transformação digital tem de ser pensada com responsabilidade, e não apenas com o objectivo de modernizar por modernizar.

RC: Como especialista em comunicação estratégica e assessoria institucional, qual é hoje o papel da comunicação na construção da reputação e credibilidade de instituições e empresas?

DE: Hoje, a comunicação é praticamente inseparável da reputação de uma instituição. Vivemos num contexto em que a informação circula rapidamente e onde qualquer inconsistência entre discurso e prática é rapidamente identificada pelo público.

O papel da comunicação, para mim, não é apenas divulgar o que a organização faz, mas garantir que existe coerência entre a mensagem e a acção. Reputação não se constrói com um comunicado bem escrito, constrói-se com decisões consistentes ao longo do tempo, e a comunicação tem a responsabilidade de traduzir isso de forma clara, transparente e credível para os diferentes públicos. Trabalhar em assessoria institucional ensinou-me que a comunicação também tem um papel preventivo: antecipar riscos, preparar a organização para cenários sensíveis e garantir que, quando surge uma situação de crise, já existe uma base de confiança construída que permite atravessar esse momento sem comprometer a credibilidade da instituição.

RC: Qual é o equilíbrio entre comunicar para o cliente actual e “caçar” novo cliente?

DE: Este é um equilíbrio que muitas organizações fazem mal, porque investem quase todo o esforço de comunicação em atrair novos clientes e esquecem que reter e fortalecer a relação com quem já é cliente e, muitas vezes, mais eficiente e mais rentável.

Aprendi isto na prática, e não na teoria. Quando decidi mudar o posicionamento da própria Destrela.mkt, o maior cuidado que tive foi precisamente esse: nunca esquecer ou subestimar o cliente actual, ou mesmo o cliente antigo, na busca por novos clientes. É fácil, quando estamos a repensar uma marca, ficarmos tão focados em atrair um público novo que acabamos por descuidar quem já confia em nós – e foi exactamente isso que eu não quis deixar acontecer.

RC: A Destrela.mkt também apoia startups em fase inicial, inclusive através de serviços pró-bono. O que a motiva a investir no crescimento de pequenos negócios e empreendedores?

DE: Fui bolseira da terceira edição da Bolsa Cabo Verde Digital e tinha um projecto chamado Forte Fome. Essa experiência permitiu-me perceber melhor o que significa ter uma ideia e tentar transformá-la em alguma coisa concreta, mas também perceber as dificuldades que existem pelo caminho.

Mais tarde, quando trabalhei como gestora de comunidades na Cabo Verde Digital, tive contacto com muitas outras startups e empreendedores. Comecei a perceber que muitas vezes não faltava talento nem vontade, faltavam orientação, conhecimento especializado, pessoas para ajudar a estruturar a ideia. Como uma pequena startup nem sempre consegue contratar uma agência, pensei: se eu tenho conhecimento que pode ajudar, por que não partilhá-lo? Para mim, isso também é responsabilidade social. Não acredito que o desenvolvimento de um ecossistema aconteça apenas através de financiamento. Conhecimento, mentoria, networking e acesso a oportunidades também são fundamentais. E há ainda uma dimensão pessoal: eu própria fui beneficiária de bolsas de estudo. Por isso, ajudar outros jovens é, de certa forma, uma maneira de devolver à comunidade parte das oportunidades que também recebi.

RC: Como embaixadora da governança da Internet em Cabo Verde, quais considera serem os maiores desafios do país em matéria de inclusão digital, segurança online e uso responsável da tecnologia?

DE: Os maiores desafios que vejo em Cabo Verde, em matéria de inclusão digital, ainda estão relacionados com o acesso equitativo. A diferença de acesso à internet e a equipamentos entre a Praia e outras ilhas, ou entre diferentes grupos sócio-económicos, ainda é uma realidade.

Depois há a questão da literacia digital. Ter acesso à internet não significa saber utilizá-la de forma crítica e segura. Precisamos de investir mais em educação digital, sobretudo entre os mais jovens, mas também entre gerações que não cresceram com a tecnologia. Em relação à segurança online, sinto que ainda há um caminho grande a percorrer em termos de protecção de dados e consciência sobre privacidade – muitas pessoas partilham informação sem perceber verdadeiramente os riscos. A minha participação em espaços como o IGF Lusofonia reforçou-me esta ideia: a governação da Internet não é um tema apenas técnico ou de especialistas – é um tema que tem impacto directo na vida das pessoas, e por isso precisa de ser discutido de forma mais próxima e acessível.

RC: A Inteligência Artificial está a transformar o marketing, a comunicação e o trabalho dos profissionais da área. Na sua opinião, a IA representa mais uma ameaça aos profissionais de comunicação ou uma oportunidade para elevar a qualidade do seu trabalho?

DE: Para mim, a Inteligência Artificial é uma ferramenta e, em muitos casos, uma parceira. Utilizo IA diariamente e reconheço o enorme potencial que tem para aumentar produtividade, acelerar processos, gerar ideias e ajudar-nos a trabalhar melhor. Mas existe uma condição: temos de saber utilizá-la.

O que mais me preocupa não é a IA substituir o profissional de Marketing ou Comunicação. É o profissional deixar de pensar porque tem uma ferramenta que pensa por ele. Vejo cada vez mais conteúdos muito semelhantes, respostas muito semelhantes, ideias muito semelhantes. Se começarmos a aceitar a primeira resposta que a IA nos dá, corremos o risco de perder precisamente aquilo que torna o Marketing interessante: pensamento crítico, criatividade, contexto e capacidade de compreender pessoas. A IA pode ajudar-me a chegar mais longe. Não pode substituir aquilo que eu sou capaz de pensar.

RC: Ser reconhecida pela Forbes Under 30 África Lusófona e estar nomeada entre as Top 10 Women in PR & Communications Cabo Verde em 2026 representa um importante reconhecimento. Que impacto essas distinções tiveram na sua carreira e quais responsabilidades carregam para si?

DE: Mudou principalmente a minha percepção de responsabilidade. É claro que trouxe visibilidade e abriu portas. Mas, para mim, o mais importante foi perceber que, quando uma mulher jovem aparece num determinado espaço, outras mulheres podem olhar e pensar: “Eu também consigo.”

Tinha 28 anos quando fui reconhecida pela Forbes, e isso teve para mim um significado enorme, porque durante muito tempo determinados patamares pareciam muito distantes. Depois dessa nomeação, passei a ser muito mais exigente comigo própria – percebi que aquilo que digo, a forma como me comporto e as decisões que tomo também podem influenciar pessoas que me acompanham. A nomeação para o Top 10 Women in PR & Communications Cabo Verde, já em 2026, chega numa fase diferente do meu percurso, mais ligada à assessoria institucional e à comunicação estratégica, o que reforça essa mesma responsabilidade: não quero que outras meninas olhem para mim e vejam uma pessoa inalcançável. Quero que vejam possibilidades.

RC: Como avalia o sector de comunicação e marketing em Cabo-Verde?

DE: Acho que o sector tem evoluído, mas ainda temos muito espaço para crescer. Durante muito tempo, muitas empresas olharam para o marketing como uma despesa, ou reduziram o marketing à comunicação e às redes sociais.

Marketing é muito mais do que publicar conteúdos. É compreender o mercado, o consumidor, a concorrência, definir posicionamento, construir uma proposta de valor e transformar essa estratégia em resultados. Tenho visto mudanças positivas, sobretudo porque existem cada vez mais profissionais qualificados e empresas que começam a perceber o valor estratégico do Marketing. Ainda temos um caminho longo pela frente, mas acredito que estamos a caminhar na direcção certa – e talvez uma das coisas que mais me entusiasma seja precisamente poder fazer parte dessa mudança, ajudando a elevar a forma como pensamos Marketing em Cabo Verde.

RC: Olhando para os próximos cinco anos, que transformação gostaria de promover no ecossistema de comunicação, marketing e inovação digital de Cabo Verde? E que conselho deixaria aos jovens profissionais africanos que pretendem construir uma carreira nessas áreas?

DE: Nos próximos cinco anos, gostava de contribuir para que o Marketing e a Comunicação em Cabo Verde deixem de ser vistos como despesa e passem a ser entendidos como investimento estratégico. Gostava também de ver mais colaboração entre profissionais, mais partilha de conhecimento e menos competição desnecessária num mercado que ainda é pequeno e que beneficia muito mais quando trabalhamos em conjunto. A nível pessoal, quero continuar a apoiar startups e pequenos negócios e a criar espaço para mais mulheres jovens em posições de decisão e visibilidade.

Aos jovens profissionais africanos que querem construir carreira nesta área, o conselho que deixaria é: não tenham pressa de saber tudo, mas tenham curiosidade genuína para aprender continuamente. Não subestimem o valor de começar pequeno – eu comecei a trabalhar de graça só para ganhar experiência, e foi isso que me abriu portas mais tarde. E, por último: usem a tecnologia e a inteligência artificial como aliadas, mas nunca deixem de pensar por vocês próprios. A criatividade e o pensamento crítico continuam a ser o que realmente nos diferencia.

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