Home Inovação As asas da resiliência: como a tecnologia de drones financiada pelo BAD está a mudar o combate às inundações em Moçambique

As asas da resiliência: como a tecnologia de drones financiada pelo BAD está a mudar o combate às inundações em Moçambique

Por: Paulo Manjate

Moçambique, historicamente fustigado pelos impactos severos das alterações climáticas, encontrou na tecnologia aeroespacial de ponta uma nova linha de defesa. Através de um financiamento estratégico do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), o país implementou o Projecto de Gestão de Desastres com Drones. A iniciativa substitui a reacção tardia pela antecipação digital, redefinindo as operações de salvamento e monitorização ambiental em solo nacional.

No passado, a avaliação de danos após a passagem de ciclones ou cheias severas dependia de voos dispendiosos de helicópteros ou do envio de equipas terrestres para estradas frequentemente intransitáveis. Este cenário mudou radicalmente.

Com a nova frota de aeronaves não tripuladas, o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) passou a dispor de uma ferramenta de varrimento rápido e de alta precisão. Os drones operados por técnicos moçambicanos são capazes de cobrir centenas de hectares em minutos, gerando mapas tridimensionais (3D) que revelam com exatidão quais as zonas habitacionais em risco iminente de submersão.

O sucesso do projecto assenta na sua tripla capacidade de atuação em cenários de crise:

  • Fase Preventiva: Os drones realizam o varrimento das bacias hidrográficas (como as dos rios Umbelúzi, Incomáti e Limpopo) para monitorizar o volume das águas e detectar fissuras em diques de protecção antes que ocorra uma ruptura.
  • Fase de Emergência: Durante as inundações, os dispositivos equipados com sensores térmicos cruzam os céus para detectar sinais de vida. Eles localizam cidadãos isolados em telhados ou árvores, mesmo em condições de visibilidade reduzida ou durante a noite.
  • Fase de Reconstrução: O mapeamento pós-desastre permite ao Governo e às agências humanitárias calcular instantaneamente a extensão dos danos em infra-estruturas críticas, como pontes, escolas e campos agrícolas, acelerando a canalização de apoios.

O investimento do BAD não se limitou à aquisição de equipamento. O grande pilar desta inovação é a transferência de conhecimento. Dezenas de jovens engenheiros e técnicos de informática moçambicanos receberam formação especializada em pilotagem remota, processamento de dados geográficos e manutenção de sistemas aeroespaciais.

Esta autonomia técnica garante que, em momentos de comunicações cortadas e isolamento logístico, as próprias províncias tenham capacidade de lançar os seus drones e tomar decisões operacionais baseadas em dados em tempo real, sem depender de consultores estrangeiros.

O caso de sucesso de Moçambique já atrai as atenções da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC). Ao provar que o cruzamento entre o financiamento internacional focado e a inovação tecnológica local pode mitigar crises humanitárias, o país posiciona-se como um laboratório vivo de resiliência climática para o continente. Os céus moçambicanos já não trazem apenas o aviso da tempestade; trazem também a tecnologia que salva vidas.

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