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Jovens Moçambicanos Desenvolvem Sistema Sustentável de Aquaponia

Texto: Alberto António

Transformar resíduos da criação de peixes em nutrientes para o cultivo de hortícolas pode parecer uma ideia futurista, mas já é uma realidade desenvolvida por jovens moçambicanos em Vilankulo, Inhambane. Através de um sistema integrado de aquaponia, três jovens licenciados em Produção Pesqueira conseguiram unir aquacultura e agricultura numa única estrutura capaz de produzir peixe e vegetais de forma sustentável, reduzindo significativamente o consumo de água e o impacto ambiental.

A tecnologia foi desenvolvida por Carlos Eusébio, Eunésia Manuel e Memória Mondlane, antigos estudantes da Escola Superior de Desenvolvimento Rural (ESUDER), unidade orgânica da Universidade Eduardo Mondlane. 

Em conversa com a nossa revista, Carlos Eusébio explicou que a aquaponia surge da combinação entre duas áreas distintas da produção alimentar. “A aquaponia é um sistema integrado de produção. O nome provém da associação entre a aquacultura, que é o cultivo de organismos aquáticos em ambientes controlados, e a hidroponia, que consiste no cultivo de vegetais sem solo. A união destes dois sistemas permite produzir peixes e plantas no mesmo ambiente”, explicou.

O sistema desenvolvido em Vilankulo é composto por um tanque de criação de peixes, um decantador, um biofiltro e camas de cultivo destinadas às plantas. O processo inicia-se no tanque onde são criadas tilápias. A alimentação administrada aos peixes gera resíduos ricos em nutrientes, sobretudo compostos nitrogenados, que são conduzidos para as etapas seguintes do sistema.

No decantador ocorre a separação das partículas sólidas, enquanto no biofiltro acontece o processo biológico mais importante da aquaponia. “No biofiltro, bactérias nitrificantes convertem a amónia produzida pelos peixes em nitrato, que é a forma de nutriente absorvida pelas plantas. Este processo é fundamental porque a amónia em excesso pode ser prejudicial tanto para os peixes como para os vegetais”, afirmou Carlos Eusébio.

Um dos elementos que distingue o projecto é o aproveitamento de materiais reciclados na construção do biofiltro. A equipa utilizou fibra de côco recolhida ao longo das praias de Vilankulo, tampas de garrafas e pedras para criar o substrato necessário à fixação das bactérias responsáveis pela filtragem biológica da água.

Após o tratamento, a água enriquecida com nutrientes é encaminhada para os canteiros de cultivo, onde foram produzidas culturas como alface, salsa e cebolinha. Além de absorverem os nutrientes, as plantas desempenham um papel importante na purificação da água.

“As raízes ajudam a remover o excesso de nutrientes e a reter impurezas, permitindo que a água retorne ao tanque dos peixes em melhores condições de qualidade”, explicou o investigador. Os benefícios do sistema vão além da produção integrada. De acordo com os criadores, a tecnologia permite reduzir até 90 por cento do consumo de água quando comparada aos sistemas convencionais de aquacultura e agricultura.

“Na aquaponia a água circula continuamente. As perdas acontecem essencialmente por evaporação ou absorção das plantas, o que torna o sistema muito mais eficiente no uso deste recurso”, referiu Carlos Eusébio. Outro aspecto destacado pela equipa é a produção de alimentos mais saudáveis. Como os nutrientes utilizados pelas plantas provêm exclusivamente dos resíduos gerados pelos peixes, não há necessidade de recorrer a fertilizantes químicos.

“A principal fonte de nutrientes é a alimentação administrada aos peixes. Isso permite produzir hortícolas de forma mais natural e sustentável”, acrescentou. Para os jovens inovadores, a experiência demonstra que a investigação científica e o reaproveitamento de recursos locais podem contribuir para soluções concretas nos sectores agrícola e aquícola. Numa época marcada pela necessidade de produzir mais com menos recursos, a aquaponia surge como uma alternativa promissora para reforçar a segurança alimentar e promover o desenvolvimento sustentável em Moçambique.

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