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Carlos Uqueio e a fotografia como testemunho da verdade e da memória colectiva

Texto: Benjamim Cristiano

Desde os 15 anos de idade, Carlos Uqueio usa as lentes da câmera para comunicar emoções, contextos e histórias. Os seus primeiros momentos com a fotografia surgiram quando ainda vivia com os seus pais, na Matola. Tudo começou com um convite do seu amigo e vizinho, Bernardo Obadias, para trabalhar como seu ajudante, experiência que despertou uma paixão que viria a definir o seu percurso profissional.

Apesar de possuir formação em Química Analítica pelo Instituto Industrial e Comercial da Matola, ter-se formado como professor de Inglês no Instituto de Formação de Professores da Matola e formação média em Administração Pública e Autárquica, encontrou na fotografia a sua verdadeira identidade profissional.

Depois de algum tempo a trabalhar como ajudante, decidiu seguir o seu próprio caminho e formar-se em fotografia no Centro de Documentação Fotográfica de Maputo, decisão que marcou o início da sua carreira com maior consistência.

Mais do que criar imagens, Carlos Uqueio queria documentar a realidade e contribuir para a informação pública. Foi assim que entrou naturalmente para o fotojornalismo. Os estágios realizados nos jornais ExpressoMoz e Público foram determinantes para a sua integração no ambiente das redacções e para a compreensão das exigências do jornalismo diário. Mais tarde, trabalhou no jornal Debate e actualmente é colaborador do maior e mais antigo matutino informativo do país, o jornal Notícias.

Ao longo de 18 anos de carreira, registou vários momentos, dentre eles a cobertura de crises humanitárias, eventos políticos e processos eleitorais e destaca o privilégio de trabalhar próximo de antigos Primeiros-Ministros de Moçambique, nomeadamente Carlos Agostinho do Rosário e Adriano Maleiane. Entretanto, são as histórias de pessoas anónimas que mais o marcaram.

“As histórias que mais me transformaram foram aquelas que envolveram pessoas anónimas enfrentando dificuldades, porque recordam constantemente a dimensão humana da profissão”, revela.

Fotografia como memória colectiva

Para Carlos Uqueio, a fotografia tem um papel fundamental e influencia a forma como a sociedade interpreta os acontecimentos e contribui para a construção da memória colectiva.

“A fotografia ajuda a sociedade a ver, compreender e recordar. Grande parte daquilo que sabemos sobre determinados momentos históricos chega-nos através de imagens que resistiram ao tempo”, destaca.

Na sua perspectiva, o poder da fotografia está na capacidade de contextualizar e humanizar a informação. Contudo, alerta para a responsabilidade no uso da imagem, pois “uma imagem mal enquadrada ou retirada do seu contexto pode conduzir a interpretações erradas”.

Embora reconheça que a fotografia jornalística partilha técnicas e sensibilidades com a fotografia documental e artística, defende que a principal diferença está no compromisso com a actualidade e com a fidelidade aos factos.

“A fotografia jornalística tem como prioridade informar com rigor e fidelidade aos factos”, explica.

Coerência entre texto e imagem

Para o fotojornalista, a qualidade da informação nos orgãos de comunicação social impressos depende da articulação entre diferentes elementos narrativos. Segundo explica, a reportagem é uma construção colectiva e, quando o texto e a imagem não comunicam a mesma mensagem, o público pode ser induzido em erro.

“Acredito que a coerência entre o texto e a imagem só é possível quando existe uma verdadeira colaboração entre o repórter e o fotojornalista”, defende.

Ao longo da sua experiência profissional, constatou diversas situações em que as fotografias publicadas não correspondiam ao conteúdo dos textos e vice-versa.

Na sua opinião, o alinhamento entre o repórter e o fotojornalista deve começar antes da cobertura e prolongar-se durante todo o processo de produção da reportagem. O objectivo é garantir que as imagens reforcem a narrativa escrita e que o texto valorize adequadamente os elementos visuais.

“Quando ambos trabalham em permanente comunicação, o resultado final torna-se mais completo, mais credível e mais impactante.”

Credibilidade e ética na era digital

Num contexto em que as imagens podem ser facilmente manipuladas com recurso a ferramentas tecnológicas e inteligência artificial, Carlos Uqueio considera que a autenticidade tornou-se um dos maiores activos do fotojornalismo e o principal factor de confiança entre os profissionais da informação e o público.

Para si, a melhor forma de preservar a credibilidade do fotojornalismo é manter elevados padrões éticos.

“Quando uma imagem é manipulada de forma enganosa, não está apenas em causa uma fotografia, mas também a reputação do profissional, do órgão de comunicação social e do próprio jornalismo”, afirma.

A ética no exercício do fotojornalismo transcende a dimensão técnica, levando os profissionais da área ao desafio permanente de manter o equilíbrio entre o dever de informar e o respeito pela dignidade humana ao fotografar situações de sofrimento, pobreza, violência ou tragédia, por exemplo.

Nestes casos, a dignidade humana deve permanecer como princípio orientador, mesmo em situações de grande relevância noticiosa.

“O interesse público nunca deve justificar a desumanização das pessoas. É necessário avaliar o valor informativo da imagem e o possível impacto sobre os retratados e suas famílias”.

Desafios da comunicação visual em Moçambique

Ao analisar o panorama nacional, Carlos Uqueio identifica vários desafios enfrentados pelos profissionais da comunicação visual. Entre eles, destaca o elevado custo dos equipamentos fotográficos e audiovisuais, que continua a limitar o desenvolvimento da actividade.

Outra preocupação tem a ver com a crescente utilização de imagens retiradas da internet e das redes sociais por alguns órgãos de comunicação social, em detrimento da produção própria de conteúdos visuais.

Para o fotojornalista, esta prática reduz oportunidades para profissionais qualificados e compromete a qualidade da informação disponibilizada ao público. Ainda assim, acredita no potencial dos profissionais moçambicanos.

“Moçambique possui profissionais talentosos e capazes de elevar cada vez mais a qualidade da comunicação visual no país, desde que existam melhores condições de trabalho e maior valorização da profissão.”

Repórter de Sombras e Esperança

Recentemente, Carlos Uqueio lançou o livro “Repórter de Sombras e Esperança: A Fotografia como Tesmunho da Reportagem”, uma obra que reúne parte da sua experiência profissional e que nasceu da necessidade de preservar memórias e partilhar experiências acumuladas ao longo de quase duas décadas de trabalho.

Entre as imagens que compõem a obra, destacam-se fotografias captadas durante a passagem dos ciclones Idai e Kenneth e outras reportagens relacionadas com os impactos das mudanças climáticas em diferentes regiões do país.

São imagens que mostram destruição e sofrimento, mas também a sua visão e capacidade de resistência do povo moçambicano.

“A minha visão de Moçambique está precisamente nessa resiliência. É um país que enfrenta inúmeros desafios, mas onde as pessoas continuam a demonstrar esperança, solidariedade e coragem”, afirma.

Ao olhar para o futuro, Carlos Uqueio espera que o seu percurso possa inspirar novas gerações de profissionais.

“Gostaria de deixar a mensagem de que a fotografia vai muito além da técnica. O mais importante é desenvolver sensibilidade, ética e compromisso com a verdade.”

Para o fotojornalista, a missão permanece a mesma: utilizar a fotografia para informar, preservar a memória colectiva e contribuir para uma sociedade mais consciente e mais humana.

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