Por: Paulo Manjate
Quando se fala de inovação tecnológica em África, os holofotes frequentemente incidem sobre a África do Sul, Quénia ou Nigéria. Mas, em Março de 2026, um jovem moçambicano reescreveu essa narrativa. Magne Neves, estudante de Engenharia Eléctrica e de Computadores na Universidade de Macau, conquistou o primeiro lugar na categoria de robótica do IoT Data Hackathon 2026, realizado no Hong Kong Convention and Exhibition Centre.
O evento, co-organizado pela GS1 Hong Kong, Cyberport e HKSTP, reuniu mais de 160 equipas de universidades, startups e profissionais de vários países. E foi contra esse cenário competitivo que Magne se destacou com um projecto que combina hardware, inteligência artificial e visão de impacto social.
O robô que vê perigos onde nós não chegamos
O projecto vencedor baseia-se no robô SpiderPi hexapod, uma plataforma de seis patas que desafia a mobilidade convencional. Ao contrário de veículos com rodas, o hexápode consegue transitar em terrenos irregulares, escombros ou superfícies instáveis, uma característica essencial para operações em cenários de desastre, fiscalização industrial ou monitorização ambiental.
O que torna o robô verdadeiramente inovador é a integração de três camadas tecnológicas:
- Cinemática Inversa optimizada: Algoritmos que garantem estabilidade e eficiência energética, permitindo marcha adaptativa em terrenos como areia, cascalho ou lama;
- Visão computacional com Edge-AI: Utilizando OpenCV, o robô reconhece em tempo real materiais perigosos (como produtos químicos ou resíduos industriais) e gatilhos ambientais de saúde;
- Plataforma IoT em nuvem: Dados de sensores são transmitidos para um painel remoto, permitindo monitorização contínua de métricas críticas de ESG, como qualidade do ar, temperatura e presença de gases tóxicos.
“O robô não só colecta dados, mas também toma decisões autónomas com base em lógicas complexas”, explicou Magne durante a cerimónia de premiação, que decorreu a 16 de Abril.
Magne Neves não é um estreante em palcos internacionais. Antes de brilhar em Hong Kong, o jovem engenheiro já havia sido distinguido com o Best Student Paper Award no International Integrated Reliability Workshop (IIRW) em 2024.
A sua formação inclui uma passagem marcante pela African Leadership Academy (ALA), na África do Sul, onde integra o Honor Council de antigos alunos. Actualmente, na Universidade de Macau, preside à Associação de Estudantes Internacionais (ISA) e é membro activo do Robotics Club.
“Agradeço aos organizadores e mentores. O ecossistema tecnológico de Hong Kong é inspirador, e reafirmo o compromisso de continuar a expandir os limites da robótica autónoma e da análise de dados IoT”, declarou Magne no dia da premiação.
O que esta vitória significa para Moçambique
Num país onde a robótica ainda engatinha no currículo escolar e o investimento em P&D é limitado, a conquista de Magne Neves é mais do que um título individual. É um sinal de que o talento moçambicano pode competir ombro a ombro com os melhores do mundo, desde que haja oportunidades, mentoria e exposição internacional.
Histórias como a de Magne reforçam a importância de incentivar as novas gerações a abraçarem as áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A inovação não tem fronteiras nem berço exclusivo, e Moçambique tem cérebro, garra e visão.
Embora o robô ainda esteja em fase de protótipo conceptual, o reconhecimento em Hong Kong abre portas para parcerias com incubadoras asiáticas e potenciais investidores interessados em soluções IoT para segurança industrial e monitorização ambiental.
Magne mantém os seus estudos em Macau, mas já deixou claro que pretende, no futuro, contribuir directamente para o desenvolvimento tecnológico de Moçambique. Por enquanto, o país pode orgulhar-se de ter um campeão internacional de robótica.