Por: Paulo Manjate
Em Pemba, na província de Cabo Delgado, começa a ganhar forma, a partir de um quarto modesto no bairro de Natite, um dos projectos mais promissores da indústria criativa digital moçambicana. Ivan Selemani, de 20 anos, autodidata e estudante de Tecnologias da Informação na Universidade Católica de Moçambique, é o mentor do Full Games de Futebol, um simulador digital que recria com fidelidade o Campeonato Moçambicano (Moçambola).
A invenção de Ivan rompe com um monopólio histórico. Enquanto a indústria global de videojogos se concentra nas ligas europeias e sul-americanas, o jovem programador decidiu digitalizar os clubes, os estádios e os atletas nacionais.
“Percebi que Moçambique tem um grande potencial. Muitos jogadores competem internacionalmente, mas o país não tinha um jogo que representasse o seu próprio campeonato”, explicou o criador.
UMA RÉPLICA DIGITAL DO FUTEBOL NACIONAL
A versão actual do jogo, inspirada na edição do Moçambola de 2025, permite ao utilizador interagir com equipas locais num ambiente virtual. O grande diferencial técnico está na adaptação dos cenários, Ivan teve de programar estádios cujas infra-estruturas fogem aos padrões internacionais, um desafio que ele encara como parte da autenticidade do projecto.
O processo de criação ainda não está concluído. A principal tarefa em falta é a modelação facial dos jogadores, um trabalho moroso que depende da disponibilidade dos atletas para as sessões de referência.
“Desenvolvi tudo com todo o meu amor e cuidado. O risco compensou”, afirma o jovem, que programa num computador de recursos limitados.
O RECONHECIMENTO INSTITUCIONAL
A inovação de Ivan Selemani não passou despercebida. Durante uma visita do Ministro da Juventude e Desporto, Caifadine Manasse, a Cabo Delgado, o jovem apresentou o seu projecto e destacou a principal barreira para o seu crescimento, a falta de um equipamento informático adequado.
Sensibilizado, o governante fez questão de, dias depois, entregar um computador portátil a Ivan.
“Temos a responsabilidade de identificar, orientar e apoiar jovens criadores. Precisamos estar próximos dos talentos e proporcionar as condições para que eles se desenvolvam”, declarou Manasse.
O apoio do governo foi complementado por uma bolsa de estudos concedida pela Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM), que também garantiu a inserção profissional do jovem programador após a conclusão do curso. O caso de Ivan ilustra como o ecossistema de inovação nacional pode florescer quando o talento encontra suporte institucional.
Ivan Selemani convive com uma deficiência motora, mas isso não limita os seus horizontes. O seu objectivo é ambicioso, atrair parceiros comerciais que já patrocinam o Moçambola, como a Electricidade de Moçambique, para transformar o Full Games numa plataforma de exportação da cultura desportiva nacional.
“Ninguém cresce sozinho. Se surgir uma oportunidade, estou pronto. Foi por isso que criei o jogo, para obter reconhecimento nacional e internacional”, afirma Ivan.
A expectativa é que a primeira demonstração oficial do “Moçambola Virtual” ocorra durante a cerimónia de abertura do campeonato deste ano, levando o talento tecnológico de Pemba para os holofotes do país e colocar Moçambique no mapa da criação de videojogos.