Home Entrevista Comunicar sob escrutínio: o rigor e a estratégia de Soraia Abdula no Porto de Maputo

Comunicar sob escrutínio: o rigor e a estratégia de Soraia Abdula no Porto de Maputo

Texto: Benjamim Cristiano

Num sector onde a comunicação exige rigor, equilíbrio e uma gestão de interesses públicos e privados, há uma profissional que sempre esteve por detrás de cada estratégia. Com formação em Ciências da Comunicação e uma trajectória profissional com início no jornalismo em Portugal, Soraia Abdula construiu uma carreira sólida que hoje está ao serviço de uma das infra-estruturas mais importantes de Moçambique: o Porto de Maputo.

Entre a redacção, a publicidade e a comunicação institucional, a sua trajectória revela uma evolução marcada pela capacidade de adaptação e por uma visão estratégica da comunicação. Foi responsável pela criação e consolidação do departamento de comunicação do Porto de Maputo. Hoje, quase 15 anos depois, continua a contribuir para o posicionamento da instituição junto de diferentes públicos, desde colaboradores, investidores e a comunidade no geral.

Em entrevista exclusiva à Revista COMARP, Soraia Abdula partilha o seu percurso profissional, os desafios da comunicação num sector sensível como o portuário, os valores que orientam o seu trabalho como gestora de comunicação, a evolução da comunicação corporativa em Moçambique e nos PALOP, entre outros temas. Leia a entrevista completa.

Revista COMARP (RC): Qual é a sua formação académica e como ela contribuiu para o seu percurso profissional?

Soraia Abdula (SA): Sou formada em Ciências da Comunicação. O meu curso definiu o meu trajecto, pois todas as áreas que tenho abraçado estão na área da comunicação.

RC: Conte-nos sobre a sua trajectória profissional até à sua posição actual.

SA: Iniciei a minha carreira como jornalista em Portugal, onde fiz a minha formação superior. Trabalhei na redacção de um jornal e em produção de conteúdos para diversos meios de imprensa escrita. Quando regressei a Moçambique, tive uma breve passagem pelo jornalismo, mas descobri-me como redactora publicitária. Depois disso, abracei a comunicação institucional no Porto de Maputo, onde estou há quase 15 anos.

RC: Ao olhar para o seu percurso, desde o jornalismo à comunicação corporativa, como define hoje a sua identidade profissional?

SA: Acredito que todos os lugares por onde passei, mesmo antes de ter iniciado a minha carreira no jornalismo, contribuíram para moldar a profissional que sou hoje. A comunicação sempre fez parte da minha vida, mas hoje uso-a como ferramenta estratégica para complementar os diversos projectos em que me encontro envolvida. Não me consigo definir como uma “especialista em comunicação”; sou uma comunicadora nata, em permanente busca de desafios que me façam crescer.

RC: Houve um momento ou alguma decisão que tenha redefinido por completo o rumo da sua carreira?

SA: Ter decidido abraçar a comunicação corporativa. Antes disso, não me via no meio corporativo. Deu-me um receio imenso nos primeiros tempos, no Porto, de estar a abrir mão da minha liberdade criativa e da paixão de fazer comunicação para várias marcas. Hoje, tenho a certeza de que foi o melhor rumo que podia ter tomado – foi, definitivamente, aqui que me construí como profissional.

RC: Há valores do jornalismo que continuam a orientar a sua actuação enquanto gestora de comunicação e imagem?

SA: Sem dúvida, a ética e deontologia estão em primeiro lugar. Principalmente por sentir que são valores que estão a extinguir-se na nossa sociedade, faço questão de preservá-los. Outros valores que me foram passados pelo jornalismo e que continuam a pautar a minha actuação são o rigor na informação, a capacidade de ouvir com imparcialidade e a busca pela verdade e transparência.

RC: Ao liderar a comunicação de uma infra-estrutura estratégica para o país, que responsabilidades acrescidas isso impõe ao discurso institucional?

SA: É preciso comunicar com rigor, equilíbrio e transparência, tendo consciência de que cada mensagem pode influenciar a confiança dos investidores, a percepção das comunidades, a reputação do sector e até a forma como o país é visto externamente.

Ao mesmo tempo, há o dever de traduzir temas complexos de forma clara e acessível, para que as pessoas compreendam o verdadeiro impacto daquela infra-estrutura no desenvolvimento económico e social. 

RC: Havendo no sector portuário interesses públicos e privados, como se constrói confiança através da comunicação?

SA: A confiança constrói-se, antes de mais, com comunicação honesta e consistente. Isso exige escuta, transparência e capacidade de explicar decisões, desafios e prioridades com clareza. As pessoas confiam mais quando sentem que não estão apenas a ouvir uma mensagem institucional, mas a ser verdadeiramente consideradas nessa conversa.

RC: Quais são as suas principais realizações e/ou campanhas como responsável do departamento de comunicação do Porto de Maputo?

SA: Eu entrei para o Porto para criar o departamento de comunicação. A minha maior realização é ver que hoje em dia a MPDC é uma marca forte, bem posicionada junto das suas diferentes audiências, desde os trabalhadores às comunidades que influenciamos, passando pelo restante sector privado e entidades governamentais. Obviamente, este caminho não foi trilhado somente pela comunicação, mas tenho a honra de poder contar a história deste Porto que se reinventou e que continua a se recriar.

RC: Qual é o maior desafio reputacional de uma entidade portuária nos dias de hoje?

SA: Saber equilibrar crescimento com responsabilidade. Os portos são motores económicos, mas estão permanentemente sob escrutínio público, quer seja por questões ambientais, impacto nas comunidades onde operam e transparência pela forma como operam. No fundo, está em demonstrar, de forma credível e consistente, em como este crescimento não acontece em detrimento de factores ambientais ou em prejuízo das pessoas, mas sim em alinhamento total com estes. 

RC: A sustentabilidade integra hoje as práticas corporativas. Como garantir que ela seja tratada como compromisso real e não apenas como discurso?

SA: A sustentabilidade só pode ser um compromisso real quando se entende que ela é fundamental para a sobrevivência da própria organização. Não são projectos isolados; ela tem de estar embebida em todos os processos, em todos os departamentos, na forma como se olha para o desenvolvimento. 

RC:  Olhando para a mulher no ecossistema da comunicação, sobretudo no ramo portuário, que desafios ela enfrenta em posições de liderança num sector tradicionalmente masculino?

SA: Porventura, essa pergunta pode fazer sentido no ramo portuário, mas não na MPDC. As mulheres no Porto de Maputo, em qualquer posição e até mesmo de liderança, são respeitadas pela sua competência, são relevantes em todos os processos de tomada de decisão e fazem parte do DNA da empresa. Não é por política ou orientação dos investidores que hoje temos 50% de mulheres no nível de liderança mais alto da empresa (o Comité Executivo) e 33% na gestão; é porque o crescimento não foi limitado pelo género. 

RC: Como avalia a comunicação corporativa em Moçambique e nos PALOP?

SA: A comunicação corporativa em Moçambique e nos PALOP tem evoluído de forma muito positiva. Hoje há uma consciência muito maior de que comunicar não é apenas divulgar, mas também posicionar, construir reputação e criar relação com diferentes públicos.

Ao mesmo tempo, ainda há espaço para crescer, sobretudo na consolidação de uma comunicação mais estratégica, menos “maquilhada”,  mais consistente e mais ligada ao propósito e ao impacto real das organizações.

Acredito que estamos num momento muito interessante: há mais talento, mais sensibilidade para a importância da comunicação e uma oportunidade clara de elevar ainda mais a forma como as instituições se apresentam e se relacionam com a sociedade.

RC: Num contexto em que a inteligência artificial ganha mais espaço, que competências continuarão a diferenciar os profissionais de comunicação nos próximos anos?

SA: A capacidade de usar essa mesma inteligência artificial em seu proveito, sem perder aquilo que mais distingue a boa comunicação: a sensibilidade humana, saber estruturar narrativas com alma, autenticidade e propósito e, claro, com critério ético. Os melhores profissionais serão os que souberem usar a IA sem comprometer a verdade, responsabilidade e integridade. 

RC: Se tivesse de resumir a sua trajectória numa frase ou ideia, qual seria?

SA: “O sentido da vida é encontrar o teu dom. O propósito da vida é oferecê-lo ao mundo.” – Pablo Picasso.

Partilhar nas Redes Sociais

Facebook
LinkedIn
X
WhatsApp

Subscreva a nossa Newsletter para receber novas publicações na revista, dicas e novas fotografias. Vamos manter-nos actualizados!

Subscreva a nossa newsletter e receba em primeira mão novas publicações, dicas exclusivas e conteúdos inspiradores. Fique sempre actualizado!