Texto: Fastudo Chavana
Em tenra idade, terminou a segunda classe com média 20 em todas as disciplinas e dispensou a quinta classe, sinais de que o seu futuro seria grandioso. O tempo passou e hoje é inegável a corroboração dos passos firmes dados na infância.
Carmelinda Manhiça é uma mulher “ronga”, moçambicana, nascida na cidade de Maputo a 02 de Outubro de 1986. O bairro Maxaquene “B” foi o palco onde grande parte da sua infância teve lugar. Foi uma criança feliz e igual a muitas: aos cuidados dos pais, brincou quando pôde e estudou quando fosse exigido.
Carrega muitas memórias dos tempos de criança, facto que a faz lembrar das noites de “Karingana wa Karingana” em família. Outro momento marcante foi quando “levei correctivo do meu pai por deitar fora o meu prato de jantar, depois de uma discussão com a minha terceira irmã mais velha”, desabafou.
Frequentou a Escola Primária da Coop, de primeira à quinta classe, e mais tarde a Escola Secundária da Polana, onde frequentou de sexta à décima classe.
Desde cedo ousou arriscar, porque sempre soube que quem não sai da zona de conforto não cresce. Em todos os lugares onde trabalhou fez sempre mais do que era exigido no contrato. “Entendo que as valências de todas as habilidades que adquirimos são mais valiosas para mim do que para a instituição que me contrata”, afirmou.
Casada e mãe de 5 filhos, é formada em Psicologia Social e das Organizações. Actualmente é mestranda em Terapia Familiar e Comunitária.
A sua aparição pública foi como apresentadora de televisão. Ainda assim, sempre esteve ligada à psicologia através da docência e, hoje, ministra palestras na área da saúde mental.
Possui experiência diversificada na gestão de projectos em saúde mental, desenvolvimento institucional em organizações não-governamentais, aconselhamento comunitário, docência universitária e palestrante no âmbito organizacional.
Apesar de não ter formação em comunicação, não esconde que sempre teve algo que a movia em direcção à comunicação. “É impossível lembrar de mim sem a questão comunicação”, confessou.
Os passos firmes a adolescência, quando fazia parte do grupo dos adolescentes na igreja Santo António da Malhangalene, local “onde fundámos o jornal VOA (Voz do Adolescente), cujo editor era o jornalista Lázaro Mabunda”, lembrou. Na paróquia, tinha como missão apresentar os saraus culturais.
Dos 18 aos 20 anos, foi repórter do Jornal Pontual, da Organização Juvenil Contra a Droga. “No ano de 2003, representei a Escola Secundária Francisco Manyanga num programa televisivo”.
Mais tarde, após a formação em Psicologia, foi indicada para participar em programas televisivos pela organização a que se encontrava vinculada. De seguida, tornou-se painelista do programa A tarde é Sua, depois o Tchova Tchova, “até que chegou o convite para me tornar apresentadora do A Tarde é Sua”, explicou.
Para Carmelinda, chegar às telas da STV foi o culminar do investimento pessoal entre a paixão de comunicar e o desejo de tornar a área da Psicologia relevante no contexto moçambicano. Todavia, não foi um processo fácil. A dificuldade residia na necessidade de lapidar para o formato TV alguém com formação em psicologia, ainda que com talento para comunicação. Nesse percurso, teve oportunidade de trabalhar com a então directora de programas na Soico durante um ano, e foi lá onde percebeu as entrelinhas da TV, desde a produção de campo até à exibição do conteúdo.
Carmelinda é uma mulher de 39 anos que chegou até aqui acreditando que Deus dá oportunidades a todos. Teve pais que sempre incentivaram a estudar e irmãos que encorajaram cada uma das suas “loucuras”, para além de contar com um marido que acredita nos seus projectos.
Acredita que as mulheres têm ganhando mais espaço na área da comunicação e liderança. No entanto, segundo observa, a percentagem ainda está distante do equilíbrio desejado. Para mudar o cenário, apresenta a fórmula: “as mulheres devem apostar na profissionalização e formação contínua, para que elas não ocupem apenas o espaço quantitativo, mas sejam referência para a tomada de decisão a diferentes níveis e um modelo para despertar nas raparigas o direito de sonhar”.
Para além de comunicadora e psicóloga, é administradora de uma empresa denominada Jovencito, mais conhecida pela componente de restauração. A organização presta também serviços de lavandaria, gestão de eventos e projectos.
No que diz respeito à conciliação das múltiplas tarefas, não tem dúvidas de que a comunicação e a psicologia têm merecido atenção no seu dia-a-dia.
Sucesso profissional não é sorte
A comunicadora considera que a adaptação digital, a profissionalização, os ordenados compatíveis com a exigência do ramo e a sustentabilidade são alguns dos maiores desafios enfrentados na área da comunicação no país.
Nutre a crença de que o desempenho pessoal, muitas vezes, depende do quanto se investe em treinamentos, leitura, entre outros. E com a experiência que ganhou na administração do Grupo Juvencito, sabe que: “a liderança de uma empresa traz mais desafios, não basta o nosso investimento pessoal, há um leque de variáveis que condicionam o nosso resultado”.
Tenciona deixar legado pessoal, através da disseminação de valores e de acções concretas voltadas à família, e legado empresarial, ao trazer soluções duradouras para a organização que dirige e para a comunidade.
O sucesso, de acordo com a nossa entrevistada, pressupõe trabalhar arduamente para o desenvolvimento da competência profissional e o treinamento para identificar e agarrar oportunidades.
“Porque uma árvore frondosa com raiz fraca cai na primeira tempestade, o sucesso profissional não é sorte, muito menos quanto se aufere. É resultado do domínio técnico na sua área de actuação e a influência que exerce, primeiro no seio da classe e depois na sociedade”.
Actualmente, está longe das telas, mas não se arreda da paixão de comunicar para gerar mudanças significativas na sociedade. “A comunicação é a oportunidade que tenho de construir um legado hoje, para promover a transformação social e impactar gerações futuras”.
Trabalha, neste momento, na gravação de um Podcast a ser lançado no próximo ano.
Quando não está a trabalhar, Carmelinda tira um tempo, activa o “modo não fazer nada” e embala-se no sono, o que revitaliza suas forças. Outras vezes deleita-se escrevendo poemas, assistindo doramas e lendo romances. Gosta de cuidar do jardim e de contemplar o mar.